Re: Alternativas à histerectomia

From: HMDAP (hospmdap@uol.com.br)
Fri, 1 Oct 1999 22:52:15 -0300


Caros Colegas,

Quando tomo conhecimento de campanhas do Ministério ou de Secretarias de Saúde favoráveis a um procedimento médico em dentrimento de outro, tento não enxergar, porém sempre vejo interêsses de ordem financeira procurando razões de ordem técnica para justificar seus argumentos. Aconteceu desta maneira, por exemplo, nas campanhas de incentivo ao parto normal. Que o parto normal é muito superior ao parto cirúrgico no que diz respeito a vantagens para a mãe e recém-nato é inegável e já é do conhecimento dos colegas, porém desqualificar a cesárea como procedimento que, quando bem indicado, tem seu valor, me parece piada!. Concordo com o Dr. José Jacyr "vamos parar de combater a cesárea e sim quem as mal indica". Exerço minha profissão em Maranguape-CE e a maioria de minha clientela é composta de pacientes do SUS. Na tentativa de reduzir os partos abdominais, já não bastava receber a metade por uma cesareana em relação ao parto normal na tabela do SUS, o governo resolveu limitar os partos cirúrgicos à força: Atualmente um Hospital credenciado ao SUS só pode apresentar contas com 35% de cesáreas em relação ao total de partos por mês. E aí vem a incoerência: estimula-se o parto normal em "casas de parto" e mais recentemente em "centros de partos normais", com o intuito de retirar o parto normal do ambiente hospitalar (parto humanizado - como dizem), então como é que os Hospitais vão poder fazer cesareanas se não irão fazer mais os partos normais???. No Hospital em que trabalho recebemos referências de profissionais do Programa de Saúde da Família - PSF, que inicialmente tentam fazer os partos nos distritos e quando nos enviam as pacientes, via de regra já vem com indicação de parto abdominal. Teço estes comentários pois temo que o movimento da Frente Parlamentar pela Mulher, em relação à incidência de histerectomias, cometa o mesmo equívoco: Determinar uma rotina de atuação desconhecendo o que acontece na ponta do atendimento médico nos municípios do nosso Brasil... Embolizações, ablações histeroscópicas nos parecem inatingíveis a curto e médio prazo para a maioria dos municípios e hospitais públicos. A realidade da Saúde Pública do nosso país caminha na contra-mão da evolução tecnológica e dos avanços da medicina, daí surgirem os PSF's e até o retorno às rezadeiras - onde Maranguape está na vanguarda deste movimento, virando até manchete do Jornal Nacional, dizendo que vai reduzir a mortalidade infantil à metade em 1 ano devido a elas... pasmem!. Na minha opinião a explicação é outra: FALTA DE DINHEIRO para a saúde pública! Então não vamos procurar explicações técnicas para justificar a necessidade de redução no número de histerectomias. Concordo plenamente com o Dr. José Jacyr em seu mais recente e-mail. Tenho me espantado ultimamente com a excessiva quantidade de pacientes que nos procuram com miomatose uterina que eleva o volume uterino a 700 - 1.000 cm³, mulheres cada vez mais jovens e com sintomatologia de muita dor e sangramentos intensos - como não realizar a histerectomia?. Em 10 anos de formado faço em média 2 histerectomias/mês e temos pacientes agendadas até dezembro (todas de pacientes do SUS) e nossa equipe nunca experimentou complicações tais como hematomas de cúpula ou problemas com os ureteres, a maioria delas são histerectomias totais, raramente com anexectomia e diversas associadas à endometriose. Não acho que exagero ao indicar tais histerectomias. Não faço porque gosto e sim porque acho necessário...

Um Abraço

Almir Pinto Neto CRM-CE: 5127 Maranguape - Ceará

> ----- Original Message -----
From: José Jacyr Leal Júnior To: Multiple recipients of list OBSTET-L Sent: Friday, October 01, 1999 9:25 AM Subject: Re: Alternativas à histerectomia

Prezados colegas.

Com todo o respeito, já não chegam as "Casas de Parto" ? Já não chega o Fantástico no domingo com seus tratamentos milagrosos ? ... e temos que explicar a nossas pacientes na segunda-feira do porque não escolhemos o "tratamento do fantástico" Peço cuidado amigos, numa campanha que claro: "Tudo tem seus méritos quando lutamos contra exageros" (que existem em escala muitas vezes menor do que alardeado). Sou plenamente a favor de alternativas a histerectomia, quando são indicadas por miomas de 1 cm, intramurais, em pacientes menopausadas.

Mas quero discordar de alguns itens dessa proposta:

"Perda da capacidade reprodutiva, pois o maior número de cirurgias é feita em mulheres férteis" = Não é verdadeiro quando indicada em pacientes com prole definida e até muitas vezes com esterilização cirúrgica prévia.

"Transtornos de ordem psíquica e sexual" = Discordo. Muitas pacientes descrevem até melhora em seu padrão emocional de vida. É uma frase características quando retornam em seis meses do procedimento - "Se soubesse como era, teria feito antes" Quem ainda não ouviu isso ?

"Afastamento das atividades de trabalho por 4 a 8 semanas". = Dois dias de internamento, sete para retirada de pontos e quinze dias retorno pleno as atividades. = Muito menos do que os dias que faltava ao trabalho ou outras atividades devido as angustiantes hemorragias.

"Aumento da incidência de patologias cardiovasculares e osteoporose, quando acompanhada da retirada dos ovários, o que é freqüente". = Nunca precisei realizar ooforectomia para resolver um TU benigno uterino.

"Todas as complicações imediatas e tardias, tanto cirúrgicas como anestésicas, inerentes a uma cirurgia de grande porte" = Em quinze anos atuando como ginecologista e obstétra, tive apenas um hematoma de cúpula vaginal que só necessitei intervir porque claro, em nossa área de atividade confusão atrai confusão. A paciente era Testemunha de Jeová e o hematoma era significativo. Para mim, pfanestiel, abertura por planos, ligadura e secção de ligamentos e uterinas, dissecção vesico-uterina e cúpula vaginal, sutura da cúpula e parede,... 40 minutos, decididamente não é cirurgia de grande porte.

Por favor senhores. Vamos nos manter responsáveis pelo que fazemos. Existem alternativas e indicações que devem ser seguidas e aprimoradas. Com certeza evoluirão. Sou contra tão e somente apenas a forma como o tema está sendo tratado. Quais os reais interesses. Se cada área da atividade humana informar o governo dessa maneira, e esperar dele uma atitude, agora posso entender porque o Brasil está desse jeito. Vamos parar de combater a cesárea e sim quem as mal indica. Não devemos mais continuar com uma sociedade onde cada um "puxa a brasa para sua sardinha". Somos responsáveis pelo futuro. Que evoluam as alternativas para que um dia, uma filha nossa possa usufruí-la. Mas que ela também possa viver num mundo mais verdadeiro.

José Jacyr Leal Júnior Centro de Avaliação Fetal Batel SC Ltda. Curitiba - Paraná - Brasil caf@jacyrleal.com.br http://www.jacyrleal.com.br


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