Re: Alternativas à histerectomia

From: José Jacyr Leal Júnior (caf@jacyrleal.com.br)
Fri, 1 Oct 1999 09:05:27 -0300


Prezados colegas.

Com todo o respeito, já não chegam as "Casas de Parto" ? Já não chega o Fantástico no domingo com seus tratamentos milagrosos ? ... e temos que explicar a nossas pacientes na segunda-feira do porque não escolhemos o "tratamento do fantástico" Peço cuidado amigos, numa campanha que claro: "Tudo tem seus méritos quando lutamos contra exageros" (que existem em escala muitas vezes menor do que alardeado). Sou plenamente a favor de alternativas a histerectomia, quando são indicadas por miomas de 1 cm, intramurais, em pacientes menopausadas.

Mas quero discordar de alguns itens dessa proposta:

"Perda da capacidade reprodutiva, pois o maior número de cirurgias é feita em mulheres férteis" = Não é verdadeiro quando indicada em pacientes com prole definida e até muitas vezes com esterilização cirúrgica prévia.

"Transtornos de ordem psíquica e sexual" = Discordo. Muitas pacientes descrevem até melhora em seu padrão emocional de vida. É uma frase características quando retornam em seis meses do procedimento - "Se soubesse como era, teria feito antes" Quem ainda não ouviu isso ?

"Afastamento das atividades de trabalho por 4 a 8 semanas". = Dois dias de internamento, sete para retirada de pontos e quinze dias retorno pleno as atividades. = Muito menos do que os dias que faltava ao trabalho ou outras atividades devido as angustiantes hemorragias.

"Aumento da incidência de patologias cardiovasculares e osteoporose, quando acompanhada da retirada dos ovários, o que é freqüente". = Nunca precisei realizar ooforectomia para resolver um TU benigno uterino.

"Todas as complicações imediatas e tardias, tanto cirúrgicas como anestésicas, inerentes a uma cirurgia de grande porte" = Em quinze anos atuando como ginecologista e obstétra, tive apenas um hematoma de cúpula vaginal que só necessitei intervir porque claro, em nossa área de atividade confusão atrai confusão. A paciente era Testemunha de Jeová e o hematoma era significativo. Para mim, pfanestiel, abertura por planos, ligadura e secção de ligamentos e uterinas, dissecção vesico-uterina e cúpula vaginal, sutura da cúpula e parede,... 40 minutos, decididamente não é cirurgia de grande porte.

Por favor senhores. Vamos nos manter responsáveis pelo que fazemos. Existem alternativas e indicações que devem ser seguidas e aprimoradas. Com certeza evoluirão. Sou contra tão e somente apenas a forma como o tema está sendo tratado. Quais os reais interesses. Se cada área da atividade humana informar o governo dessa maneira, e esperar dele uma atitude, agora posso entender porque o Brasil está desse jeito. Vamos parar de combater a cesárea e sim quem as mal indica. Não devemos mais continuar com uma sociedade onde cada um "puxa a brasa para sua sardinha". Somos responsáveis pelo futuro. Que evoluam as alternativas para que um dia, uma filha nossa possa usufruí-la. Mas que ela também possa viver num mundo mais verdadeiro.

José Jacyr Leal Júnior Centro de Avaliação Fetal Batel SC Ltda. Curitiba - Paraná - Brasil caf@jacyrleal.com.br http://www.jacyrleal.com.br

-----Mensagem original----- De: Paulo Barrozo, MD <prbarrozo@uol.com.br> Para: Multiple recipients of list OBSTET-L <obstet-l@talk.obgyn.net> Data: Sexta-feira, 1 de Outubro de 1999 04:24 Assunto: Alternativas à histerectomia

Colegas da lista: Fomos convidados para fazer uma apresentação em Brasília para um grupo de Deputados Federais denominado Frente Parlamentar Pela Mulher, sobre a incidência de histerectomia no Brasil e propostas para diminuí-la.

Nos pediram também, que sintetizássemos a apresentação em 2 páginas impressas, para que fosse enviada à consideração do Ministro da Saúde.

Envio abaixo o rascunho deste resumo, para que os colegas opinem e façam sugestões, pois a nossa lista com certeza, tem uma composição que representa a média do pensamento ginecológico brasileiro.

Saudações.

Proposta de Estudo de Alternativas à Histerectomia no Brasil

1-Introdução:

Atualmente estimamos que no Brasil são realizadas 200.000 retiradas de útero/ano, sendo 50% financiadas pelo SUS e 50% por convênios e particulares. Destas, 2/3 teriam tratamentos alternativos e 1/3 ainda seriam inevitáveis. Estes tratamentos alternativos tem o potencial de levar a uma grande redução de custos, tanto financeiros como sociais. Apesar de já existirem diversos tratamentos que evitam a retirada do útero e suas conseqüências, estes estão disponíveis quase que exclusivamente na rede privada. Mesmo nesta, com uma abrangência muito menor do a que seria desejável.

Indicações mais comuns da retirada do útero: Miomas (a mais comum), sangramento uterino anormal de causa benigna, endometriose e adenomiose, câncer do colo e corpo uterino.

2-Conseqüências da cirurgia de retirada do útero:

Perda da capacidade reprodutiva, pois o maior número de cirurgias é feita em mulheres férteis. Transtornos de ordem psíquica e sexual. Afastamento das atividades de trabalho por 4 a 8 semanas. Aumento da incidência de patologias cardiovasculares e osteoporose, quando acompanhada da retirada dos ovários, o que é freqüente. Todas as complicações imediatas e tardias, tanto cirúrgicas como anestésicas, inerentes a uma cirurgia de grande porte.

3-Alternativas à histerectomia:

Embolização do mioma uterino: procedimento realizado em regime de one-day-hospital, permitindo o retorno às atividades laborativas entre 2 a 5 dias, com índice de óbitos igual a zero e de complicações muito baixo, segundo a literatura médica disponível nos EUA e Europa.(2) Substitui a histerectomia na maior parte das indicações por miomas uterinos, preservando a fertilidade. Custos um pouco mais altos no momento, podendo ser muito reduzidos com ganhos de escala.

Miomectomia via abdominal ou via histeroscópica: Substitui a histerectomia em quase todas as outras indicações de miomas não atendidas pela embolização. Não levam à esterilização da mulher. Dependendo da técnica empregada, retorno ao trabalho variando de 2 a 5 dias a até 4 a 8 semanas. Complicações variam de muito menores, a iguais às da histerectomia, também em função das técnicas empregadas. Sem as conseqüências psicológicas e sexuais da histerectomia.(3) Custos iguais ou inferiores aos da histerectomia, podendo ser reduzidos com ganhos de escala.

Cirurgia de redução ou ablação de endométrio: Substitui a histerectomia no tratamento do sangramento uterino anormal de causa benigna. Realizada através de vídeo histeroscopia ou outros equipamentos específicos. Retorno ao trabalho em 2 a 3 dias. Complicações de muito menor gravidade e freqüência que a histerectomia(4). Custos já inferiores aos da histerectomia, podendo ser ainda mais reduzidos.(5)

Campanhas educativas: Baixo custo e sem efeitos colaterais. No cantão de Ticino na Suíça, foi feita uma campanha, por 10 meses, de esclarecimento da população sobre a histerectomia. Nos 12 meses subsequentes foi obtida uma redução de 25% nessa cirurgia, sem nenhuma outra medida adicional.(6)

Existem ainda outros tratamentos que poderão ser avaliados. No entanto os aqui citados, se amplamente disponíveis, poderiam levar a uma redução de metade a 2/3(1) no total de histerectomias realizadas no país, com elevação da qualidade de vida das mulheres e redução de custos financeiros e sociais.

4-Propostas:

Geração e coleta de dados sobre indicações, tipos de cirurgia, complicações, absenteísmo e custos relacionados com a histerectomia. Avaliação de eficácia, custos e demais indicadores, relativos aos procedimentos alternativos. Criação de um programa visando a implantar as mudanças necessárias à redução do número de histerectomias no Brasil, disponibilizando as alternativas supracitadas, na rede pública. Para concretização destas propostas, sugerimos a criação de um grupo consultivo composto por técnicos do Ministério da Saúde, representantes de ONGs ligadas à saúde da mulher/direitos reprodutivos e sociedades médicas ginecológicas.

Bibliografia

1. Goldfarb HA, Greif J. The No Hysterectomy Option: Your Body - Your Choice; Rev. And Updated; (New York: John Wiley & Sons, 1997): XIV. 2. Worthington-Kirsch R, Popky G, Hutchins F; Uterine arterial embolization for the management of leiomyomas: quality-of-life assessment and clinical response. Radiology 1998;208:625-629. 3. Goldfarb HA, Greif J. The No Hysterectomy Option: Your Body - Your Choice; Rev. And Updated; (New York: John Wiley & Sons, 1997): 39-63. 4. Barrozo, PRM; Santos MAP; Amorim, AJ; Pedrosa F; O Papel da Cirurgia Vídeo-endoscópica no Sangramento Uterino Anormal de Causa Benigna. FEMINA, vol. 23, número 5, 305-307, Junho 1995. 5. Barrozo, PRM; Santos MAP; Amorim, AJ; Análise de Custos da Redução Endometrial Histeroscópica x Histerectomia Total Abdominal Tradicional. J Bras Ginec; vol. 105, número 7, Julho 1995. 6. Domenighetti G, Lurachi P, Casabianca A, et al. Effects of information campaign by the mass media on hysterectomy rates. Lancet 1988;2:1470-1473).

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     Dr. Paulo R. M. Barrozo, M.D., TEGO, TCBC
     Centro de Tratamento de Miomas-Clínica Santa Helena
     Cabo Frio  -  Rio de Janeiro  -  Brasil
     Fax:+55 24 6473737 Tel:+55 24 6471200 Ext 207
     barrozo@mioma.com.br    barrozo@usa.net
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