Re: A CULPA É DOS MÉDICOS

From: Allan Rendeiro (allan@libnet.com.br)
Sun, 13 Jun 1999 20:28:58 -0300


Para Refletir ! Fiquei encantado com o que você escreveu, sem sombra de dúvida, digno de ser publicado. Tenho uma pequena colocação quanto aos exames auto-gerados ou direcionados ou comissionados ou qualquer outro adjetivo. Infelizmente A CULPA É DO MÉDICO. Quando compramos qualquer equipamento que possa proporcionar um melhor atendimento, um melhor diagnóstico ou mesmo um melhor tratamento, sem sombra de dúvidas nosso "coração" está imbuído de proporcionar o melho para o nosso paciente. Porém, infelizmente um único médico dentre um universo de bem intensionados que procure fazer com que o seu vídeo-colposcópio, seu holter, seu Mapeador se pague ou renda um pouco mais, ou até o laboratório que abona um percentual dos exames encaminhados ou quem sabe os médicos proprietários de hospitais interessados em prosperar o seu negócio não conjuge da correta solicitação é o motivo para o que vem acontecendo. E por culpa de uns poucos, muitos pagam pelo grave descrédito a que somos submetidos, chegando ao triste episódio que todos devem ter sofrido ao solicitar ums Dopplerfluxometria diante de um CIUR e sermos interpelados por um funcionário do convênio questionando a necessidade de tal exame ! Um abraço a todos.

José Jacyr Leal Júnior escreveu:

> A CULPA É DO MÉDICO!
>
> Cansado de ouvir reclamações de dirigentes de empresas (que dizem
> pretender prestar "serviços" a saúde), sobre médicos auto-geradores de
> exames, excessos de consultas, exames, cirurgias e os mais variados
> tipo de desvios, solicitei na última reunião com essas empresas, que
> cessassem definitivamente essa "choradeira" e passássemos a propostas
> mais produtivas. Porém após o desabafo, já em casa descansando comecei
> a questionar a nossa profissão.
>
> É culpa do médico que sempre e de uma forma obstinada buscou soluções
> para os males dos homens desde o inicio de sua história. No princípio
> a medicina devia ser muito barata pois quase nada podia ser feito. É o
> sonho dos planos de saúde. Nenhum exame, nenhuma cirurgia a não ser
> algumas craniotomias para tirar maus espíritos, apesar que eu não faço
> idéia qual era a LPM 5000 a.C. para tal procedimento.
>
> De lá para cá passaram-se alguns milhares de anos para só no século
> passado os avanços mais significativos da semiologia médica e
> principalmente do sanitarismo iniciar um processo sem volta para o
> aumento de custos atuais dos "planos de saúde": a tremenda diminuição
> da mortalidade e o grande e terrível ganho de longevidade do
> "usuário".
>
> O último século deu inicio sem dúvida ao período mais produtivo da
> medicina. Não sei se foi a descoberta dos RX, a evolução da anestesia
> ou a invenção (e a intuição de para que servia) do esfignomanômetro,
> mas foram os primeiros passos para o aumento das prestações dos
> "planos de saúde da época", já que os médicos passaram a solicitar
> mais RX e com o descobrimento e uso dos antibióticos os "usuários"
> sobreviviam mais tempo gastando mais em saúde pois não morriam como
> era a prática usual. Aliás morriam sim de câncer após um tempo por
> tantas radiografias.
>
> A anestesia iniciou uma verdadeira corrida ao interior do corpo humano
> e inúmeras técnicas foram desenvolvidas para tirar o usuário das
> garras das trevas e recolocá-los de novo pagando, aí sim, prestações
> cada vez maiores dos planos, já que esses começaram a perceber que
> haviam pacientes de alto custo. No inicio, as cirurgias registraram
> até uma diminuição das contas hospitalares principalmente porque com o
> impressionante avanço da anestesia, não eram mais necessários pagar
> tantos auxiliares para segurar o paciente na mesa. Mas com o tempo os
> pacientes passaram a sobreviver aos "experimentos" e aqueles
> auxiliares voltaram para atuar em UTI’s rudimentares na época,
> mas ávidas de novos equipamentos e custos.
>
> O esfignomanômetro também foi um dos grandes culpados. O diagnóstico e
> progressivo controle da pressão arterial dos usuários que subia a cada
> aumento de prestação do plano de saúde, gerando por sua vez mais
> alterações físicas e emocionais funestas que por sua vez aumentavam
> ainda mais as prestações gerando mais conseqüências e assim por
> diante. O homem que então já vivia mais tempo, passou a morrer de
> infarto. Não sei bem se por culpa do plano ou do esfigmo, mas morria.
> O médico, dono do esfigmo, sentindo-se talvez culpado, voltou as
> intensas Pesquisas Universitárias e descobriu mais um grande custo
> para os planos: os exame de rotina colesterol total, triglicerídeos,
> HDL, LDL, eletrocardiograma, ecocardiografia, teste de esforço,
> MAPA... O dono do plano passou a necessitar de todos esses exames.
>
> Cada médico culpado em sua área passou a ser um ferrenho perseguidor e
> maior algoz dos donos de planos de saúde. A evolução da sociedade como
> um todo trouxe até os acidentes de carro que antes não existiam e
> agora entopem os hospitais de usuários de planos e ...aqueles médicos
> de pronto socorro ensandecidos, vejam vocês, não querem mais ouvir
> gritos dos pacientes num simples exame clinico ao torcer uma suspeita
> de fratura para ouvir a crepitação dos ossos rompidos entre si e vão
> logo pedindo RX, tomografia e gastando com medicamentos.
>
> O médico é um herói. Já escrevi isso outro dia para a revista Veja,
> quando ela comentava então sobre outra culpa do médico – os seus
> erros. Erro talvez quando inventou uma espécie de colher de ferro para
> tentar salvar as mulheres que morriam de parto e quantos fetos foram
> assim sacrificados até perceberem que de certa forma eles poderiam
> assim também serem salvos e como conseqüência mais dois a pagar planos
> de saúde durante a vida.
>
> A evolução da obstetrícia, o sanitarismo, médicos, verdadeiros heróis
> que procuravam em todas as partes darem o melhor de si, foram os
> culpados da tremenda evolução da humanidade. Toda a tecnologia
> existente foi agregada a medicina nos últimos anos e o trabalho
> (culpa) do médico foi decisivo para isso.
>
> Aquela mulher que sobreviveu ao parto, teve mais filhos e todos
> tiveram problemas e gastos com a saúde. Separou-se do marido e
> necessitou de terapia. Esse, alcoólatra, morreu de cirrose após anos
> de procedimentos de alto custo que o mantiveram vivo o suficiente para
> provocar um acidente de carro que gerou mais gastos aos planos de
> saúde. A mulher, ficou velha e para surpresa de todos pois nunca
> haviam visto, seus ovários pararam de funcionar, gerando novas
> consultas pois não suportava mais ondas de calor e insônia. Infartou e
> foi salva por médicos e infartou novamente por culpa dos médicos, que
> se não a tivessem salvo no primeiro infarto, não teria infartado uma
> segunda vez gerando mais custos. Quantos gastos com próteses ósseas
> necessárias por densitometrias não realizadas para diminuir custos, e
> quantas densitometrias caras realizadas para evitar gastos com
> próteses não liberadas pois os planos não sabem mais o que conter?.
>
> Há! a medicina preventiva, outra grande culpada na longevidade dos
> usuários e do aparecimento e crescimento da geriatria, especialidade
> nova. Há! tantos exames, há! tantos internamentos, há! tantos
> gastos...
>
> Tenho então saudades dos tempos das craniotomias a.C. Li um livro
> outro dia muito interessante que tentavam um grupo de repórteres
> viajando pelo mundo, provar que o ser humano enquanto comportamento,
> não evoluiu uma "vírgula" apesar de tantos avanços tecnológicos.
> Realmente no final do livro chega-se a essa conclusão pois os melhores
> e piores sentimentos permanecem constantes nesse ser que se julga dono
> do mundo. Até a intenção e o prazer daquele que cravava uma estaca na
> cabeça de um doente acreditando solucionar uma dor, não devia ser
> muito diferente do olhar de um colega nos dias de hoje, buscando uma
> esperança de cura para a mesma dor, numa tomografia ou ressonância
> magnética. A tecnologia evoluiu e a dor continua ali. Mas sem dúvida
> evoluiu, culpa da curiosidade daquele primeiro. E de todos os seus
> seguidores que somos nós, talvez um pouco mais bem vestidos, por
> quanto tempo ?, não sei, não tenho muita certeza. Há! Sim tenho que
> parar agora, lembrei de buscar meu salário no plano de sáude, pois
> tenho que pagar a prestação da roupa branca.
>
> José Jacyr Leal Júnior
>
> Centro de Avaliação Fetal Batel SC Ltda
>
> Curitiba - Paraná - Brasil
>
> caf@jacyrleal.com.br
>
> http://www.jacyrleal.com.br
>


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