Re: enfermeira obstetra e cesariana
From: OLIDIO VAZ PRIMO (olidio@net21.com.br)
Sun, 14 Jun 1998 18:23:10 -0300
-----Mensagem original-----
De: Betania Maria Fernandes <betania@enfermagem.ufjf.br>
Para: Multiple recipients of list <obstet-l@talk.obgyn.net>
Data: Quarta-feira, 10 de Junho de 1998 19:34
Assunto: enfermeira obstetra e cesariana
>Aos "colegas da Lista":
>Sinto-me na obrigação de colocar-me frente às questões sobre a cesareana e
o
>fato da enfermeira obstretra assistir ao parto . Como enfermeira obstetra,
>quero esclarecer aos colegas que somos profissionais capacitadas no nível
de
>pós-graduação (USP, UNIFESP, UFRJ) para que possamos assistir com qualidade
>e segurança à cliente durante todo o ciclo gravídico-puerperal, não sendo
>necessário a supervisão do médico, o que nos é garantido na Lei do
exercício
>profissional.
>Lógico que a enfermeira obstetra possui conhecimentos suficientes para
>solicitar a assessoria médica e até mesmo encaminhar ao médico aquilo que
>não for da sua competência técnica.
>A defesa pela cesárea colocada por algumas pessoas desta lista demonstra
uma
>concepção equivocada, uma vez que hoje se trabalha com a medicina baseada
em
>evidência e vários artigos (nacionais e internacionais) vêm provando que a
>cesárea aumenta consideravelmente o índice de morbimortalidade materna e
>perinatal.
>A preocupação com o atual quadro eleva-se na medida que o abuso da
cesariana
>é sem dúvida, um dos determinantes da esterilização feminina no Brasil,
>refletindo no declínio da fecundidade no país. Segundo Berquó (1993) de
4,5
>filhos por mulher em 1980 ocorreu um decréscimo para 3,5 em 1984 e para
2,5
>em 1991. O risco relativo de mortalidade materna é até 12 vezes superior
no
>parto cesárea em relação ao vaginal (MORA, YUNES, 1993).
>No período de 1988 a 1989, a freqüência de cesáreas no Brasil, variou de
>3,7% a 92% (BRASIL, 1993), tendo o maior índice nas maternidades
conveniadas
>e privadas. Alguns fatores que interferem no alto índice de cesarianas
>explicitados são relacionados ao ensino médico nas universidades. O desejo
>permanente de operar no afã de demonstrar e exercitar a habilidade
>cirúrgica, o solucionar de pronto uma intercorrência conduz o parto natural
>a uma posição secundária na ótica do aluno, que o enxerga, muitas vezes,
>como um retrocesso e um ato cansativo e ultrapassado (BRASIL, 1993, p.11).
>O reflexo deste ensino tem como conseqüência a formação intervencionista e
>medicalizante que se traduz na alta taxa de cesariana do país. Para Castro,
>Ratto, Garbayo (1997, p. 21) a assombrosa taxa de cesarianas em nosso país
>reflete muito mais uma cultura medicalizante que atinge tanto médicos
>quanto parturientes do que uma necessidade obstétrica.
>Vários autores apontam as indicações não médicas como possíveis explicações
>para esta situação como a conveniência de tempo e financeira para o médico
e
>a realização da laqueadura tubária e também " a percepção por parte dos
>médicos, de que esse tipo de parto é mais seguro que o normal" (CFM, 1997).
>Segundo Rattner (1990), do ponto de vista da mulher o que ocorre é a
>preocupação com a dor do parto e a futura elasticidade vaginal como fatores
>que exercem influência para a cesariana.
>No estudo de Rattner (1996, p. 29) sobre a incidência de cesáreas em São
>Paulo a autora comenta que não é possível que ¾ das mulheres do Estado de
>São Paulo não apresentam condições de ter seus filhos pela via vaginal,
>reforçando a suposição de que há outras razões, que não as indicações
>obstétricas, incrementando o uso desta tecnologia.
>A discussão dos possíveis fatores determinantes sobre a alta incidência de
>cesáreas no Brasil foi realizada por Faúndes & Cecatti (1991, p. 155) que
>baseia-se na concepção da seguinte linha de causalidade: o medo da dor do
>parto, a idéia de que uma cesárea eletiva, decidida com antecedência para
>dia e hora marcados, permitirá à mulher um parto sem qualquer dor além da
>concepção de que ela manterá a anatomia e fisiologia da vagina e do
períneo.
>Um outro fator que os autores destacam é o conceito popular de que o parto
>vaginal trás mais riscos para o feto do que uma cesárea.
>A resolução do parto através da cesariana em nosso meio parece que faz
parte
>de uma cultura que a considera como a forma natural de nascer. Observa-se
na
>mídia a proliferação de imagens e relatos sobre o processo do nascimento e
>é reforçada por vários médicos.
>
>Betânia Maria Fernandes - Enfermeira Obstetra, Docente da disciplina de
>Enfermagem em Saúde da Mulher da F.E/UFJF - Mestre em Enfermagem pela UFRJ.
>
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Administrador da lista: flavio.monteiro.desouza@obgyn.net
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Última atualização: Mon May 19 16:36:10 2008
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