Re: enfermeira obstetra e cesariana

From: vendruco@smnet.com.br ("vendruco@smnet.com.br")
Wed, 10 Jun 1998 22:32:28 +1100


Betania Maria Fernandes wrote: >
> Aos "colegas da Lista":
> Sinto-me na obrigação de colocar-me frente às questões sobre a cesareana e o
> fato da enfermeira obstretra assistir ao parto . Como enfermeira obstetra,
> quero esclarecer aos colegas que somos profissionais capacitadas no nível de
> pós-graduação (USP, UNIFESP, UFRJ) para que possamos assistir com qualidade
> e segurança à cliente durante todo o ciclo gravídico-puerperal, não sendo
> necessário a supervisão do médico, o que nos é garantido na Lei do exercício
> profissional.
> Lógico que a enfermeira obstetra possui conhecimentos suficientes para
> solicitar a assessoria médica e até mesmo encaminhar ao médico aquilo que
> não for da sua competência técnica.
> A defesa pela cesárea colocada por algumas pessoas desta lista demonstra uma
> concepção equivocada, uma vez que hoje se trabalha com a medicina baseada em
> evidência e vários artigos (nacionais e internacionais) vêm provando que a
> cesárea aumenta consideravelmente o índice de morbimortalidade materna e
> perinatal.
> A preocupação com o atual quadro eleva-se na medida que o abuso da cesariana
> é sem dúvida, um dos determinantes da esterilização feminina no Brasil,
> refletindo no declínio da fecundidade no país. Segundo Berquó (1993) de 4,5
> filhos por mulher em 1980 ocorreu um decréscimo para 3,5 em 1984 e para 2,5
> em 1991. O risco relativo de mortalidade materna é até 12 vezes superior no
> parto cesárea em relação ao vaginal (MORA, YUNES, 1993).
> No período de 1988 a 1989, a freqüência de cesáreas no Brasil, variou de
> 3,7% a 92% (BRASIL, 1993), tendo o maior índice nas maternidades conveniadas
> e privadas. Alguns fatores que interferem no alto índice de cesarianas
> explicitados são relacionados ao ensino médico nas universidades. O desejo
> permanente de operar no afã de demonstrar e exercitar a habilidade
> cirúrgica, o solucionar de pronto uma intercorrência conduz o parto natural
> a uma posição secundária na ótica do aluno, que o enxerga, muitas vezes,
> como um retrocesso e um ato cansativo e ultrapassado (BRASIL, 1993, p.11).
> O reflexo deste ensino tem como conseqüência a formação intervencionista e
> medicalizante que se traduz na alta taxa de cesariana do país. Para Castro,
> Ratto, Garbayo (1997, p. 21) a assombrosa taxa de cesarianas em nosso país
> reflete muito mais uma cultura medicalizante que atinge tanto médicos
> quanto parturientes do que uma necessidade obstétrica.
> Vários autores apontam as indicações não médicas como possíveis explicações
> para esta situação como a conveniência de tempo e financeira para o médico e
> a realização da laqueadura tubária e também " a percepção por parte dos
> médicos, de que esse tipo de parto é mais seguro que o normal" (CFM, 1997).
> Segundo Rattner (1990), do ponto de vista da mulher o que ocorre é a
> preocupação com a dor do parto e a futura elasticidade vaginal como fatores
> que exercem influência para a cesariana.
> No estudo de Rattner (1996, p. 29) sobre a incidência de cesáreas em São
> Paulo a autora comenta que não é possível que ¾ das mulheres do Estado de
> São Paulo não apresentam condições de ter seus filhos pela via vaginal,
> reforçando a suposição de que há outras razões, que não as indicações
> obstétricas, incrementando o uso desta tecnologia.
> A discussão dos possíveis fatores determinantes sobre a alta incidência de
> cesáreas no Brasil foi realizada por Faúndes & Cecatti (1991, p. 155) que
> baseia-se na concepção da seguinte linha de causalidade: o medo da dor do
> parto, a idéia de que uma cesárea eletiva, decidida com antecedência para
> dia e hora marcados, permitirá à mulher um parto sem qualquer dor além da
> concepção de que ela manterá a anatomia e fisiologia da vagina e do períneo.
> Um outro fator que os autores destacam é o conceito popular de que o parto
> vaginal trás mais riscos para o feto do que uma cesárea.
> A resolução do parto através da cesariana em nosso meio parece que faz parte
> de uma cultura que a considera como a forma natural de nascer. Observa-se na
> mídia a proliferação de imagens e relatos sobre o processo do nascimento e
> é reforçada por vários médicos.
>
> Betânia Maria Fernandes - Enfermeira Obstetra, Docente da disciplina de
> Enfermagem em Saúde da Mulher da F.E/UFJF - Mestre em Enfermagem pela UFRJ.

Betânia. Acho interessante a idéia da enfermeira obstetriz: ela faz os partos fáceis e deixa os "ossos" para o médico. Legal isto.(e ganha o mesmo) Quanto as estatísticas de morbidade em cesarianas, elas são contaminadas pelas patologias obstétricas, que em sua maioria são resolvidas por via alta. Acho também que esta questão deva ser discutida com maior lealdade, sem administradores e principalmente sem demagogia que alguns fazem, dizendo que fazem poucas cesareanas mandado-as para serviços de referencia. Cito aqui em minha cidade em que um hospital, que não tem anestesista pelo SUS, encaminha todas as cesareas para o hospital universitário, ficando só partos. legal isto também. Abraço Floriano Santa Maria.


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