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Re: Maravilhoso , Expl..... o texto da VejaFrom: berg@usa.netThu, 9 Oct 1997 02:15:22 +0000
Transcricao "Sou médico. Não sou um assassino" Trabalho como neurocirurgião no Hospital de Urgências de Goiânia, o maior do Estado, há cinco anos. No domingo 28, às 11h30 da manhã, resolvi deixar o plantão no meio e ir para a 8ª Delegacia de Polícia. Ali, registrei queixa contra o hospital. A acusação: omissão de socorro. Dois dias depois, o diretor do hospital, doutor Cyro de Castro, apresentou meu nome à comissão de ética do hospital para analisar minha atitude, abandono de função. Dependendo do julgamento da comissão, posso vir a ser julgado pelo Conselho Regional de Medicina de Goiás e até perder o registro de médico, a profissão que exerço há dezessete anos. Corro esse risco, mas o faço com absoluta consciência. Abandonei meu plantão, que terminaria às 7 da noite, por uma razão clara: sou médico, não sou um assassino. Cansei de ver pessoas morrer na minha frente e não poder fazer nada. Cansei de falar com mães desesperadas, no corredor do hospital, achando que seus filhos estão sendo atendidos, quando, na verdade, estão apenas entubados, sem socorro adequado, morrendo. Cansei. Cheguei até a inventar uma saída vocabular para a situação. Nunca digo a uma mãe que seu filho está morrendo. Digo "seu filho está evoluindo para o óbito". Choca menos. Há cinco anos, o Hospital de Urgências de Goiânia, que todo mundo conhece por Hugo, era um bom hospital. Ganho ali cerca de 1.500 reais, mas minha renda chega a 5.000, com quatro empregos que tenho. De um ano para cá, o Hugo se deteriorou demais. Há dois meses, registro no livro dos plantões que há gente morrendo porque o hospital não atende direito, e venho pensando no que fazer. Há vinte dias, liguei para um amigo no CRM e pedi que investigassem o hospital. Ele me pediu uma denúncia formal, que só me prejudicaria perante a direção. No domingo, quando cheguei para o meu plantão, havia três casos graves, todos garotos na faixa dos 18 anos, vítimas de acidente de carro. Os quatro médicos responsáveis pela triagem não haviam chegado. Os pacientes, inclusive os três garotos, estavam em macas na sala de reanimação. Precisavam de uma tomografia urgente, pois eu nem sabia o que tinham. Mas o tomógrafo está quebrado há duas semanas. Só quem é médico sabe o que é um centro de neurocirurgia sem tomógrafo. É como uma sala de cirurgia sem luz. Liguei para a casa do diretor do hospital. Ele me pediu calma, apareceu meia hora depois e deu um cheque do hospital de 260 reais para um dos pacientes fazer a tomografia em outro hospital. No fim da manhã, explodi. Não podia mais compactuar com aquela mentira. Há duas semanas, morreu um paciente de 24 anos que chegou com múltiplas fraturas no crânio, e não pude fazer nada. O hospital não tem instrumentador para ajudar nas cirurgias. Às vezes, estou operando, deixo o paciente com a cabeça aberta num canto da sala, corro para pegar uma tesoura ou um grampo e volto. Cansei de improvisar exames de angiografia cerebral, uma coisa agressiva e dolorosa, usada nos anos 40. Apalpa-se a carótida, uma artéria do pescoço, enfia-se um cateter e injeta-se o contraste para chegar à cabeça. Aí, faz-se a radiografia contrastada. Funciona numa guerra, num campo de batalha, mas num hospital é um escândalo. Pior: no Hugo nem isso dá para fazer mais, porque o hospital não tem contraste. A situação de impotência me deixa louco. O que acontece hoje é o seguinte: o paciente chega, eu entubo, ponho no respirador, sento e espero morrer. Vou lá, faço a ficha e mando o corpo para o IML. Isso já aconteceu quatro vezes comigo. Eu não acho que estava matando, acho que estava deixando de salvar. Dava o atendimento possível, entubava e prolongava a vida no respirador, mas isso não é o suficiente. Assim só se dá uma satisfação para a família, que acha que o parente foi atendido só porque não está numa maca no corredor. Isso é prática comum nos hospitais. Os pacientes morrem e os parentes acusam os médicos. No ano passado, aqui mesmo, um residente, rapaz de 26 anos, recebeu um paciente e, sem tomógrafo, teve de fazer um buraco de trépano na cabeça dele, uma prática em desuso há quarenta anos, utilizada para saber se havia sangue entre o osso e a meninge. Mais tarde, o paciente morreu. O pai esperou o residente na porta do hospital, armado. O rapaz saiu pelos fundos. Será que as pessoas sabem o que é começar a carreira tendo de sair de um hospital pela porta dos fundos? Eu saí pela porta da frente e fui à delegacia. Isso não muda o caos da saúde pública no país. Mas não vejo o que mais posso fazer. A saúde precisa de uma nova mentalidade. Quem disse que saúde tem de dar lucro? Nem atendo por convênios como Golden Cross, Blue Life, essas coisas. No fundo, acho isso uma picaretagem. Eles vivem glosando despesas com exames. Isso é terrível porque destrói a harmonia da relação médico-paciente. O paciente fica achando que o médico está querendo faturar com exames caros. Esses planos ganham fortunas, ninguém sabe onde põem o dinheiro e, de repente, quebram. Uma coisa é certa: a Golden Cross não quebrou por pagar exames caros ou altos salários aos médicos. Isso ninguém fala por causa do corporativismo. Tenho dez colegas neurocirurgiões que concordam em grande parte com o que digo. Depois que fui à delegacia, não recebi um único telefonema de solidariedade nem de crítica. Paulo Roberto Taveira, 41 anos, é neurocirurgião no Hospital de Urgências de Goiânia Copyright © 1997, Abril S.A. Quem vive e trabalha em hospitais de emergencia sabe muito bem o que e isto. ========================== ================ Guttenberg Primo MD Brasilia - DF / Brasil mailto:berg@usa.net ICQ UIN: 2009980 Brazilian Obstetrics & Gynecology Web http://www.brnet.com.br/pages/primo/primo.htm
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