Assistencia obstetrica humanizada (msg longa)

From: Flavio Monteiro de Souza (flavioms@uerj.br)
Tue, 4 Mar 1997 09:49:02 -0600


Esta mensagem e' um embriao de discussao da assistencia humanizada ao parto, com algumas observacoes. A assistencia clinica ao parto e' assunto muito extenso, com numerosas nuances.

At 08:03 21/02/97 -0300, Betania wrote:

>Flávio,
>
>Como enfermeira-obstetra nao poderia deixar de fazer algumas consideracoes.
>Gostei da conduta de voces e penso que poderiamos aprofundar a discussao
>sobre o nosso paradigma de atencao ao parto.
>

Acredito que a "humanizacao" da assistencia ao trabalho de parto passa por uma re-educacao nao so' do obstetra como de toda a equipe de saude. As gestantes devem ter acesso a informacoes previas sobre como sera' seu parto, visita ao pre-parto etc. Devem ser informadas do processo fisiologico do nascimento, durante o pre-natal. Devem ter acesso tambem a formas de analgesia de parto, universalmente disponiveis, pois nao e' admissivel que hoje em dia, com todos os avancos neste sentido, a gestante continue sendo torturada com as dores do parto. Claro, a sensibilidade algica de cada uma e' diferente, e existem as que nao necessitarao de qualquer forma de analgesia.

> Precisamos de um modelo menos intervencionista, fragmentado, mais acolhedor
>e generoso no atendimento a mulher no momento especial que é de dar a luz.
>Sinto-me a vontade para falar do que observo na minha pratica: situacoes
>catastroficas, onde a mulher nao é respeitada como um elemento central no
>processo de parir, e o parto é visto como um evento medico e nao como um
>evento "eminentemente fisiologico".
>

A pratica medica e, por extensao, de todos os que prestam assistencia `a saude, e', eticamente, fincada no respeito humano e no atendimento compreensivo e amoroso. Os que assim nao procedem, nao estao prestando assistencia adequada. Por vezes, temos que ser mais duros no trato com nossos pacientes, mas o respeito nunca devera' faltar.

>Podemos imaginar a seguinte situaçao ("o nosso dia-a-dia"): a parturiente
>chega a maternidade, é submetida a tricotomia e enteroclise (para que?),

Ha' alguns anos nao indicamos mais a tricotomia rotineira para o parto normal. Se necessario, faz-se tricotomia apenas no local da incisao (episiotomia ou cesariana) e alguns momentos antes da intervencao. Nao ha' sentido em tricotomia perineal para laparotomia, como nao ha' sentido em tricotomia pubiana para episiotomia (que quase sempre nao precisa de tricotomia alguma). Medidas de higiene (lavagem com Povidine etc.) sao tomadas. Evitar-se tricotomia precoce diminui o grau de infeccao cutanea. A enteroclise ainda e' utilizada em nosso servico, mas nos casos de trabalho de parto inicial e e' opcional.

>mobilizada em uma cama de hospital, em jejum, com hidratacao venosa com
>ocitocina (acelerar para quem?)

A ocitocina deve ser reservada apenas aos casos em que ha' indicacao: inducao do parto em gestacao de alto risco e correcao dos disturbios da contratilidade uterina. Mesmo assim, deve ser utilizada em doses fisiologicas (ate 8 mUI/min durante o trabalho de parto, e mais, se necessario, para despertar contracoes na inducao, mas reduzida assim que possivel), lembrando-se que e' o principal fator iatrogenico para o sofrimento fetal agudo e rotura uterina.

>em um ambiente nada acolhedor, onde fica
>solitaria, gritando de dor, em panico, querendo que alguem ouca o seu
>sofrimento. A frase "na hora de fazer voce gostou, agora aguenta" é ainda
>expressa por alguem da equipe (prescricao moral a cerca da sexualidade do
>outro).
>

Esse e' um dos piores desrespeitos que se pode fazer com a parturiente!

>O obstetra chega faz um toque, ausculta o feto e vai-se embora. Quando os
>gritos se tornam mais fortes

A analgesia de parto, se necesaria, deveria ser universalmente disponivel.

>ele comeca a ficar irritado e passa tambem a
>gritar mais alto com a parturiente, faz um toque vaginal e comenta que
>ainda tem um "resto de colo" que é preciso reduzi-lo (?).

Nao e' boa pratica reduzir-se o colo uterino. Causa edema e pode ser fonte de distocia.

> É levada para uma
>outra sala, mais fria ainda (em todos os sentidos), o obstetra grita mais
>uma vez com a parturiente. Ela ira deitar em posicao de litotomia, e comeca
>a ouvir gritos do obstetra, da atendente de forca, forca, se o seu bebe nao
>nascer a culpa é sua e tantas outras formas de violencia institucional. É
>feito a episiotomia e de repente alguem da equipe resolve ajuda-la fazendo a
>manobra de Kristeler.

A manobra de Kristeller, como usualmente praticada, e' traumatica tanto `a mae como ao feto. Se necessario, preferimos usar o forcipe de alivio, muito menos traumatico quando adequadamente aplicado, apesar de todo o estigma. A manobra de Kristeller foi originalmente descrita como a "manutencao" do fundo uterino, para manter o feto em posicao apos uma contracao uterina, e nao como um verdadeiro extrator de fetos pela forca. Conheco alguns casos de traumatismos graves com esta manobra, inclusive com morte fetal e materna.

>O bebe nasce ao som de gritos, luzes e refletores
>"para a equipe", é cortado imediatamente o seu cordao, obrigando-o a
>respirar (sensacao de queimadura nos pulmoes), e realizado uma "endoscopia"
>(mesmo se o Apgar for 9 ou 10 ) envolto em panos asperos e frios. É levado
>ao colo da mae sendo retirado em segundos...

Quando e' levado ao colo mae, pois na maior parte das vezes e' mostrado rapidamente e levado ao bercario. Todos os recem-nascidos em boas condicoes deveriam permanecer com a mae apos o parto, inclusive sugando ao seio. O ambiente do parto deve ser calmo, silencioso, sem luzes fortes (apenas iluminacao adequada no local onde o medico esta' atuando).

>
>Parece um filme de terror, nao é mesmo.

Essa foi uma das minhas primeiras impressoes quando comecei a frequentar maternidades. Ficava aterrorizado com este tipo de ambiente e assistencia, e procuro, sempre, humanizar o ambiente do parto.

>
> Como diz Michel Odent
>
> "Para mudar a forma de viver, há que mudar-se a forma de nascer"
>
>Um abraco,
>
>Betania

Saudacoes a todos da lista!

Flavio

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Flavio Monteiro de Souza

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Prof. Assistente de Obstetricia
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Representante Internacional da OBGYN.net - Brasil

flavioms@uerj.br flavio@bigfoot.com

http://www.lampada.uerj.br/obst/obst.html


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