Re: En: trabalho de parto com histerorrafia previa

From: betania.fernando (befe@artnet.com.br)
Fri, 21 Feb 1997 08:03:54 -0300


Como voce sabe, a nossa conduta na UERJ e' permitir o parto vaginal apos uma operacao cesariana previa, independentemente do tempo em que a operacao foi efetuada. O tempo de histerotomia, internacionalmente considerando, nao tem importancia. O American College of Ob/Gyn sugere que ate' pacientes submetidas a 2 (isso, duas) cicatrizes de cesariana previas sejam submetidas a prova de trabalho de parto, independentemente do tempo decorrido desde a ultima operacao. O risco do parto vaginal nestas circunstancias e' menor que o risco de uma nova laparotomia. Especificamente, o risco de rotura uterina durante o trabalho de parto apos uma cesariana segmentar anterior e' inferior a 1%, independentemente do tempo em que a operacao foi efetuada. Quando ocorre (raramente) esta rotura uterina geralmente e' precocemente identificada, e nao implica em mortalidade fetal ou materna estatisticamente superior `a da operacao de repeticao. Este risco e' muito inferior ao risco de morbidade da operacao cesariana repetida, que tipicamente e' de 30% (quando se consideram as infeccoes urinarias e outras), e a mortalidade materna apos o parto vaginal e' significativamente menor que a mortalidade materna apos a cesariana de repeticao. Lembrar que a mortalidade materna por operacao cesariana e' de 10 a 80 (oitenta) vezes superior a mortalidade materna apos um parto vaginal, mesmo em partos vaginais apos cesarianas. Por esses motivos, nos sempre aconselhamos a prova de trabalho de parto apos operacao cesariana anterior, desde que nao exista indicacao previa de cesariana. E' evidente, no entanto, que as boas normas de acompanhamento do trabalho de parto devem ser observadas: uso de ocitocina apenas se necessario e em doses fisiologicas (1 a 8 mUI/min), nao fazer Kristeller e preferir o forcipe de alivio, se necessario. Assistencia obstetrica atenciosa e criteriosa, nao se distanciar da paciente. Centro cirurgico disponivel em tempo habil para casos de emergencia. Ha' uns 2 mezses fiz, por acaso, um parto vaginal "acidental" em paciente com 4 cesarianas anteriores, sem qualquer problema (chegou quase no periodo expulsivo).

Um abraco,

Flavio

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Flavio Monteiro de Souza

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Prof. Assistente de Obstetricia
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Representante Internacional da OBGYN.net - Brasil

Flávio,

Como enfermeira-obstetra nao poderia deixar de fazer algumas consideracoes. Gostei da conduta de voces e penso que poderiamos aprofundar a discussao sobre o nosso paradigma de atencao ao parto.

Precisamos de um modelo menos intervencionista, fragmentado, mais acolhedor e generoso no atendimento a mulher no momento especial que é de dar a luz. Sinto-me a vontade para falar do que observo na minha pratica: situacoes catastroficas, onde a mulher nao é respeitada como um elemento central no processo de parir, e o parto é visto como um evento medico e nao como um evento "eminentemente fisiologico".

Podemos imaginar a seguinte situaçao ("o nosso dia-a-dia"): a parturiente chega a maternidade, é submetida a tricotomia e enteroclise (para que?), mobilizada em uma cama de hospital, em jejum, com hidratacao venosa com ocitocina (acelerar para quem?)em um ambiente nada acolhedor, onde fica solitaria, gritando de dor, em panico, querendo que alguem ouca o seu sofrimento. A frase "na hora de fazer voce gostou, agora aguenta" é ainda expressa por alguem da equipe (prescricao moral a cerca da sexualidade do outro).

O obstetra chega faz um toque, ausculta o feto e vai-se embora. Quando os gritos se tornam mais fortes ele comeca a ficar irritado e passa tambem a gritar mais alto com a parturiente, faz um toque vaginal e comenta que ainda tem um "resto de colo" que é preciso reduzi-lo (?). É levada para uma outra sala, mais fria ainda (em todos os sentidos), o obstetra grita mais uma vez com a parturiente. Ela ira deitar em posicao de litotomia, e comeca a ouvir gritosdo obstetra, da atendente de forca, forca, se o seu bebe nao nascer a culpa é sua e tantas outras formas de violencia institucional. É feito a episiotomia e de repente alguem da equipe resolve ajuda-la fazendo a manobra de Kristeler. O bebe nasce ao som de gritos, luzes e refletores "para a equipe", é cortado imediatamente o seu cordao, obrigando-o a respirar (sensacao de queimadura nos pulmoes), e realizado uma "endoscopia" (mesmo se o Apgar for 9 ou 10 ) envolto em panos asperos e frios. É levado ao colo da mae sendo retirado em segundos...

Parece um filme de terror, nao é mesmo.

Como diz Michel Odent

"Para mudar a forma de viver, há que mudar-se a forma de nascer"

Um abraco,

Betania


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