Terapia de reposição hormonal pode aumentar risco de câncer do seio

From: Joao Lima (medico12@hotmail.com)
Thu, 14 Feb 2002 02:02:37 +0000


Terapia de reposição hormonal pode aumentar risco de câncer do seio

Denise Grady

Um novo estudo encontrou mais evidências de que as mulheres que fazem terapia de reposição hormonal por mais de cinco anos, após a menopausa, têm um risco maior de desenvolverem câncer do seio, especialmente aquele do tipo conhecido como tumor lobular, que corresponde a algo entre 5% e 10% desse tipo de câncer.

Outros estudos encontraram resultados semelhantes, demonstrando um modesto aumento de risco, que retorna, entretanto, à média, cerca de cinco anos após a mulher deixar de tomar os hormônios.

Já o último relatório, publicado na edição de quarta-feira do Journal of the American Medical Association, demonstra que as mulheres que tomaram os hormônios por cinco ou mais anos, nos últimos seis anos, tiveram um aumento do risco de câncer do seio de 60% a 85%, o que representa um risco 1,6 a 1,85 vezes maior do que o de uma mulher que nunca tomou os hormônios.

O aumento do risco de ocorrência de tumores lobulares foi maior, cerca de três vezes aquele de uma mulher que nunca tomou hormônios. As descobertas se aplicam igualmente às mulheres que tomaram somente estrogênio e as que tomaram estrogênio em combinação com um outro hormônio, a progestina.

Traduzindo o estudo em número de casos, esse risco significa que, entre as mulheres que não tomam hormônios, 253 em cada 100 mil vão sofrer de câncer do seio em determinado ano, incluindo 23 tumores lobulares. Naquelas que tomam hormônios por cinco ou mais anos, 419 vão desenvolver o câncer do seio, incluindo 70 casos de tumores lobulares. O número de casos extras, que se presume ser causado pela terapia hormonal, é de 166, incluindo os 70 tumores globulares.

Segundo Emily White, autora do estudo e epidemiologista do Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle, a evidência acumulada é "bastante forte" no sentido de que a reposição hormonal aumenta o risco do desenvolvimento do câncer do seio.

Ela disse ainda que a crença em que a reposição hormonal previne doenças cardíacas, que já chegou a ser tida como um fato incontestável da medicina, tendo sido utilizada como uma das razões principais para que se recomendasse essa terapia, tem sido contestada pelos recentes estudos.

"Sendo assim, eu penso que a comunidade de pesquisa precisa reavaliar os riscos e benefícios e produzir sugestões e consenso", diz White.

Clifford Hudis, chefe de medicina do seio do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, que não participou da pesquisa feita em Seattle, afirma que o estudo foi bem realizado e que estimula a reflexão. Ele descreve a reposição hormonal como "um desapontamento geral".

"Agora está ficando claro que os benefícios são muito mais sutis do que poderíamos esperar, e que os riscos são substanciais", afirma Hudis.

Não obstante, ele acrescenta: "Antes que alguém comece a entrar em pânico, deve-se fazer uma observação ampla do impacto social. Ainda que o tratamento aumente o risco de um raro tipo de câncer do seio, o quadro geral está melhorando. Os índices de morte por câncer do seio nos Estados Unidos estão em queda. Pelo menos estamos rumando para a direção correta".

Os tumores lobulares formam aglomerados nas células produtoras de leite, ao contrário da maioria dos cânceres do seio, que crescem nos canais que levam o leite. Os dois tipos são tratados da mesma forma, mas os tumores lobulares são mais difíceis de ser detectados. Alguns estudos sugeriram que a incidência do câncer lobular do seio estaria aumentando nos Estados Unidos, e vários pesquisadores dizem que o aumento provavelmente se deveria à reposição hormonal.

O estudo feito por White incluiu quase 1.400 mulheres, com a idade entre 50 e 74 anos. Metade das mulheres teve câncer do seio, e as outras não tiveram a doença. Os pesquisadores identificaram os dois grupos de mulheres e, a seguir, fizeram uma investigação para determinar se elas haviam feito terapia de reposição hormonal.

Todas as mulheres tinham um plano de saúde que mantinha os registros de suas receitas, que foram utilizadas pelos pesquisadores para determinar que medicamentos elas tomaram. Nas mulheres que sofreram de câncer no seio, os pesquisadores estudaram os registros de receitas nos cinco anos que terminaram um ano antes de o câncer ser diagnosticado.

"Um aspecto único desse estudo foi que não confiamos na memória das mulheres", diz White. "Utilizamos um banco de dados computadorizado de farmácias, de forma que contássemos com informações precisas".

Apesar disso, um ponto fraco nesse e em outros estudos anteriores é o fato de terem sido as próprias mulheres que tomaram a iniciativa de fazer a terapia hormonal, ao invés de terem sido escolhidas aleatoriamente para receber as drogas ou um placebo. Os estudos nos quais os pacientes escolhem o seu próprio tratamento não são considerados definitivos, já que não são tão confiáveis cientificamente quanto aqueles experimentos nos quais o grupo de tratamento e o de controle são escolhidos de forma aleatória.

Um estudo rigoroso e de âmbito nacional sobre a reposição hormonal, o Women's Health Initiative, no qual as mulheres foram selecionadas de maneira aleatória para tomar ou não os hormônios, está em andamento, mas os resultados não estarão disponíveis antes de 2004 ou 2005.

"Essa será a maior evidência que teremos a mão", afirma White.

Enquanto isso, as mulheres e os seus médicos têm de fazer escolhas baseadas em informações incompletas. A reposição hormonal pode prevenir a redução da espessura óssea, e comprovadamente diminui as ondas de calor e outros sintomas desagradáveis que muitas mulheres experimentam durante a menopausa.

"No momento, não podemos ser dogmáticos quanto a essa terapia", adverte Hudis. "Para algumas mulheres, a melhoria da qualidade de vida proporcionada pela reposição hormonal faz com que a terapia valha a pena. Mas os benefícios de saúde quantificáveis são muito mais questionados do que costumavam ser, e os riscos são melhor definidos".

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