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=?iso-8859-1?Q?~Re:_Casas_de_parto_normal,_não_tão_normal??!!?From: João Batista Marinho de Castro Lima (jbmclima@uol.com.br)Sat, 5 Aug 2000 18:51:38 -0300
Com certeza os avanços da obstetrícia permitiram uma redução da mortalidade materna e perinatal. Mas não devemos esquecer que grande parte dessa redução se deve às melhorias das condições de vida das populações, citando apenas alguns dados, como redução do número de filhos por casal, melhores condições de moradia e nutrição, espaçamento entre as gestações, etc. É bom lembrar também que as taxas de cesariana acima de um determinado limite podem contribuir para um aumento da morbidade e mortalidade materna e perinatal, visto que quando realizadas sem a devida indicação podem acarretar riscos tanto para a mãe quanto para a criança que não teriam como se beneficiar do procedimento. A explicação é simples: numa população de mulheres/crianças algumas apresentam problemas que seriam solucionados com uma cesariana, portanto sendo beneficiadas com o procedimento e outras não teriam problemas que necessitariam de uma cesariana e portanto estariam sendo submetidas a um risco adicional apenas pela realização da cesariana, o que não é aceitável do ponto de vista ético e científico. Segundo a OMS, baseado nos países que possuem os menores índices de mortalidade materna e perinatal no mundo, as taxas de cesariana deveriam ser de 15 %. Segundo o DATASUS, com dados do do SINASC, no Brasil ocorreram 3.022.619 nascimentos de crianças vivas no ano de 1997, sendo 1.205.008 por cesariana (ver: http://www.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sinasc/dxbr.def). Considerando o índice da OMS como referência, foram realizadas 751.615 cesarianas sem necessidade. Qual o impacto disso na morbidade e mortalidade materna e perinatal? Quanto às casas de parto, elas aprecem como uma opção a mais no sistema de assistência à maternidade, não vindo como substitutas dos hospitais. Para o funcionamento das mesmas é necessário a existência de um hospital de retaguarda para a devida cobertura e ação no caso de complicações. Vale lembrar também que apenas algumas mulheres serão elgíveis para ter o parto na casa de parto e dessas, algumas também não aceitarão ser assistidas nesse local, o que deve ser respeitado. Quanto à segurança, já existe uma vasta experiência em outros países em relação aos centros de nascimento e alguns estudos randomizados controlados que demonstram que tal proposta é segura, além de propiciar um maior grau de satisfação das mulheres em relação à assistência que receberam (Ver: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi?CMD=Display&DB=PubMed). Na realidade brasileira, acredito porém que é mais importante mudar-se as práticas obstétricas dentro dos hospitais, propiciando uma atmosfera mais humanizada (presença de acompanhante, doula etc.), com maior respeito à autonomia e dignidade das mulheres e livre de intervenções médicas desnecessárias e não validadas cientificamente (ex.: episiotomia de rotina, enema de rotina, tricotomia de rotina, jejum de rotina, decúbito lateral esquerdo de rotina, etc.). Como estas mudanças encontram fortes reações entre a nossa categoria, a casa de parto surge como uma opção para se por em prática um modelo de assistência que não se descuida da segurança, mas deve se preocupar com os aspectos humanísticos, sociais e culturais da assistência ao nascimento. Não se propõe uma volta ao passado, mesmo porque impossível. Mas devemos resgatar práticas esquecidas pelo aparato tecnológico e mesclá-las com práticas atuais que sejam validadas cientificamente e possam contribuir para a redução da morbidade e mortalidade, além de permitir uma experiência mais gratificante para a mulher e sua família. A grande oposição que se encontra nesse momento, acredito está muito mais relacionada a questões corporativas do que a possíveis complicações. Quanto ao Prof. Caldeyro-Barcia, gostaria de citar aqui algumas de suas palavras mais recentes e peço licença para a tradução que fiz do inglês: "O livro 'Pursuing the Birth Machine' é uma pedra de toque na bibliografia contemporânea sobre o nascimento. Ele claramente apresenta o 'modelo médico' com toda a sua moderna tecnologia vesus o 'modelo social' no qual é dada a ênfase nos fatores psicológicos, emocionais e sociais. Os dois modelos não são mutuamente exclusivos mas bastante complementares...Garantindo que os fatores psicológicos, emocionais e sociais, assim como os desejos da mãe e as tradições étnicas sejam levados em consideração, eu não vejo nenhuma desvantagem em aplicar tecnologias quando elas sejam realmente necessárias e que sua eficácia seja provada cientificamente. Tenho trabalhado dentro dos dois modelos. De 1947 em diante, principalmente realizando pesquisas, entusiasticamente desenvolvi e empreguei tecnologias agressivas. Pelo fato de estar presente e interagir com a mãe e sua família durante a gravidez e o nascimento até que a criança estivesse sugando o seio materno, comecei a prestar mais e mais atenção ao que chamamos de 'assistência humanizada ao parto', no qual uma condução conservadora e não agressiva tornou-se o centro de nossa atenção. Tendo cuidado do nascimento de meus seis filhos e doze netos, tive a oportunidade de viver o evento, não apenas como um médico, mas, mais importante, como alguém da família tendo um novo membro, e compartilhando da celebração junto com ela. O corpo médico profissional (obstetras) está lentamente aceitando algumas mudanças na assistência ao parto. Por exemplo, a participação do marido ou companheiro e outros parentes recebem mais aceitação que uma década atrás. Uma consideração similar pode ser feita em relação à liberdade da mulher de se movimentar e mudar de postura durante o nascimento..." (Wagner, M. Pursuing The Birth Machine - The search for appropriate birth technology. Camperdown: ACE Graphics, 1994, foreword). João Batista jbmclima@uol.com.br
>----- Original Message ----- -----Mensagem Original----- De: Sergio Coca Ruiz Para: latina@obgyn.net Enviada em: Terça-feira, 25 de Julho de 2000 07:19 Assunto: Casas de parto normal, não tão normal??!! Casas de parto?? Parece que estamos retrocedendo no tempo...!! O que deveria ser feito e uma comparação da mortalidade materno-infantil, antes e depois da obstetrícia moderna... aceito que o índice de cesarianas tem aumentado, mas o índice de mortalidade materno-infantil diminuiu, o por acaso isso não importa?? As parterias podem ser de grande ajuda, mas sempre e quando estejam monitorizadas por um médico. Si Caldeyro-Barcia soubesse disto, pensaria que todo seu trabalho foi para o lixo...!! Sua mensagem foi colocada em nosso forum: http://forums.obgyn.net/forums/obstet-l/ Obrigado por sua opinião.
Administrador da lista: flavio.monteiro.desouza@obgyn.net Solicitações à lista: obstet-l-request@obgyn.net Última atualização: Mon May 19 16:33:46 2008 |
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