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From: Jaime Nonato (jaimen@zaz.com.br)
Fri, 21 Apr 2000 18:03:39 -0300


Desvendaremos os mistérios do cérebro? Entender o funcionamento dos neurônios é uma coisa, mas saber como o cérebro gera a consciência é um problema bem diferente Steven Pinker

Imagine a seguinte cena: em laboratório do futuro, você olha para a tela de um televisor fora do ar. Vendo os pontinhos, consegue distinguir um determinado padrão, mas não é necessário dizer nada aos pesquisadores porque eles sabem exatamente o que você está vendo.

Os cientistas estão controlando os sinais elétricos emitidos de uma das bilhões de células de seu cérebro. Quando essa célula é acionada, você enxerga um padrão; quando ela está inativa, você vê outro. Sua consciência pode ser lida por meio de um único neurônio.

Em seguida, os cientistas enviam uma corrente elétrica para os neurônios localizados naquela região cerebral e, como em um passe de mágica, os padrões se alternam em sua visão.

À primeira vista, a possibilidade de ler e controlar a mente pode parecer mera fantasia. Mas esse tipo de experiência já foi realizado com sucesso em macacos pelo neurocientista William Newsome, da Universidade Stanford, e poucos duvidam de que o experimento funcionaria também com seres humanos.

Esse é apenas um exemplo do extraordinário avanço no conhecimento das funções do cérebro ocorrido nos últimos dez anos.

Das imagens ao senso moral, da memória cotidiana às grandes proezas intelectuais, cada processo da mente pode ser mapeado em uma região do cérebro. Com a ressonância magnética funcional, uma nova técnica que mede o fluxo sanguíneo, é possível saber se uma pessoa está criando uma imagem mental de um lugar ou de um rosto.

Os cientistas são também capazes de impedir o processo de aprendizagem em um camundongo ao remover um de seus genes. Ou de melhorar sua capacidade de aprendizagem ao implantar cópias adicionais do mesmo gene.

É possível ainda ver as nervuras que fazem um assassino matar sem se sentir culpado, assim como as dobras bem desenvolvidas que permitiram a Einstein deduzir os segredos do universo.

Será que um dia nós poderemos compreender o cérebro tão bem quanto o coração, os rins e outros órgãos? Quem controlará o nosso pensamento, os cientistas ou os ditadores? E os neurologistas, depois de mapear o cérebro até a última sinapse (conexão entre dois neurônios), conseguirão reproduzir sua configuração elétrica num chip de silício e imortalizar a mente humana?

É muito difícil prever. O cérebro humano é o sistema mais complexo do nosso universo. Não há nada mais intrigante do que esse órgão, com seus bilhões de neurônios transmitindo incessantemente informações por meio de trilhões de sinapses.

Com pesquisadores brilhantes e ferramentas tecnológicas poderosas, é provável que a neurociência cognitiva venha um dia a compreender como o cérebro dá origem à mente humana. Mas, por outro lado, trata-se de uma questão tão complexa que seria ingênuo arriscar uma previsão.

Um dos maiores desafios é desvendar como o cérebro representa o conteúdo de nossos pensamentos e emoções. Embora as regiões cerebrais responsáveis pelo ciúme, percepção visual e fala já tenham sido identificadas, entender como -- e não onde -- esses fenômenos ocorrem é um grande mistério.

Não se sabe ainda como o cérebro organiza as conexões lógicas que permitem diferenciar a piscadela de um flerte do piscar de olhos de alguém colocando uma lente de contato.

Outra dificuldade é entender como o simples trânsito de íons pode criar a sensação vívida, subjetiva e imediata de cor, som, coceira e outras manifestações que compõem o nosso ser. Não há dúvida de que a atividade fisiológica do cérebro é responsável por aquilo que nós chamamos de experiência.

Pensamentos e emoções podem ser deflagrados, interrompidos ou modificados por impulsos elétricos e químicos. Mas ninguém consegue entender ao certo por que alguns estímulos cerebrais são sentidos como algo pessoal.

Há quem diga que as experiências subjetivas não podem ser cientificamente medidas e portanto não constituem objetos de estudo da ciência. Outros afirmam que, uma vez feita a distinção entre processos conscientes e inconscientes e demonstrada sua influência sobre o comportamento humano, tudo poderá ser esclarecido.

Mas alguns acreditam que esse ramo da ciência conhecido como "sentiência" ainda carece de uma boa explicação e esperam que um dia apareça um gênio capaz de elucidá-lo.

Se a resposta para todas essas indagações lhe parece óbvia, então você está preparado para a maior conquista da neurociência do futuro. Depois de uma série de aperfeiçoamentos, o digitalizador de sinapses estará pronto para fazer uma cópia-reserva de sua mente, que poderá ser armazenada em um chip.

O único problema é que esse processo destruirá o tecido digitalizado. Será preciso então escolher entre o velho cérebro e a nova cópia. E uma coisa é afirmar que esse cérebro digital seria capaz de reagir e se comportar como o original. Outra é dizer que, com a nova mente, você continuaria sendo de fato você.

Alguém tem coragem de encarar o digitalizador?

Steven Pinker é professor de ciências cognitivas do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e autor dos livros "How the Mind Works" e "Words and Rules".


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Última atualização: Mon May 19 16:33:26 2008