Re: Casas de Parto

From: Almir Pinto Neto (almirpinto@uol.com.br)
Thu, 9 Mar 2000 06:58:16 -0300


Dr. José Jacyr,

Mais uma vez parabenizo-o pela brilhante explanação. Concordo em gênero, número e grau. Aqui em Maranguape-CE, a Secretaria Municipal de Saúde, além de estimular a existência dessas "Casas de Parto", demitiu os poucos obstetras de seu quadro funcional e formou equipes de "Saúde da Família", onde médicos sem a experiência do parteiro e enfermeiras, passaram a fazer o pré-natal. Trabalho no Hospital e Maternidade que é a referência de obstetrícia do Município e todos os dias me deparo com pacientes mal-conduzidas em seu pré-natal, com agravos que poderiam ter sido evitados, cheias de dúvidas e receios com relação ao parto, com cartões de pré-natal sem informações completas, etc. Na maioria das vezes, nossa equipe de obstetras tem que dar algumas orientações necessárias no momento do parto, que poderiam ter sido dadas se o pré-natal fosse eficiente. Cada dia que passa, mais me convenço de que: O que norteia o planejamento da saúde pública é o lado financeiro e a luta pelo poder, em detrimento da preocupação com o indivíduo.

Abraços

--
    Almir Pinto Neto
    CREMEC: 5127
    Maranguape-Ceará

> ----- Original Message ----- From: José Jacyr Leal Júnior To: Multiple recipients of list OBSTET-L Sent: Wednesday, March 08, 2000 9:53 AM Subject: Casas de Parto

CASAS DE PARTO - THE INSIDE HISTORY

"PEOPLE ONLY SEE WHAT THEY ARE PREPARED TO SEE "

"- As pessoas apenas vêem o que estão preparadas para ver". Essa frase pertence a um "site" na internet, e instiga o visitante num desafio, a descobrir o correto diagnóstico, em uma imagem de ultra-som fetal. O diagnóstico está "na cara" e sua conclusão depende apenas do seu preparo para vê-lo. Transportando a frase para nossas vidas é fácil concluir quantas coisas estão "em nossa cara" e deixamos passar, apenas por que ainda não estamos preparados para elas. Assim só as reconhecemos e valorizamos muitas vezes, quando já estão longe demais para serem resgatadas.

Está na hora de pensarmos um pouco mais profundamente sobre Casas de Parto quais seus reais objetivos ?

Analisando apenas superficialmente aquela frase: "As pessoas apenas vêem o que estão preparadas para ver". Haveria então boa intenção e ingenuidade nas condutas e propostas fervorosamente defendidas ? Isto é, todos realmente acreditam no que dizem e tentam provar ? ou seria melhor dizer: " - As pessoas apenas vêem o que querem ver", e assim criam histórias recheadas de segundas intenções para atingir seus objetivos?

Vamos direto ao ponto - Os envolvidos: o feto, a mãe, a parteira e o médico. O primeiro, coitado nem "apita". Aliás apita sim quando vem ao mundo antes da mãe conseguir chegar a algum lugar, (se é que tentou, quis ou pôde). A mãe desde o princípio dos tempos, agachava-se em qualquer lugar e "paria" . Como muitas vezes "o resultado normal, não era tão normal assim", aproximaram-se dela a princípio apenas mulheres, por tabus sexuais, por solidariedade entre parideiras, etc... Com o passar dos anos tornaram-se curiosas, matronas, parteiras. Como os resultados "normais insistiam em continuar algumas vezes não tão normais assim", aproximaram-se delas, (parturientes e parteiras), os médicos.

Os tabus sexuais, a vergonha, aos poucos foram caindo por terra, quando passaram a ser resolvidos por médicos, cada vez mais "partos normais, não tão normais assim". É inegável que a medicina evoluiu e hoje literalmente "despencaram" todos os índices de mortalidade maternas e fetais.

Seria ótimo se a história fosse só assim. Mas existem graves problemas e é aí que devemos ter coragem e estarmos preparados para ver, diagnosticar e enfrentar. Não é objetivo desse texto discutir os problemas que trazem um péssimo atendimento médico. Não é um tratado de psicologia para entender porque um médico "berra" com uma coitada gestante num período expulsivo, ou mal indica uma cesárea, que é por sua vez mal realizada, num ambiente inadequado e com material contaminado. Não é um tratado de políticas de saúde para analisar porque a população é tão ignorada pelo governo. A intenção é VERMOS os caminhos que estão sendo tomados, para auxiliar as gestantes num momento tão único e que deveria ser cercado da maior segurança.

"- Nosso objetivo é uma alternativa segura e de qualidade para a assistência ao parto às mulheres brasileiras". Assim apregoam as hoje denominadas enfermeiras obstétricas (antigas parteiras) em defesa das chamadas Casas de Parto. (Elas não gostam, mas é curioso como nós obstetras gostamos de sermos chamados de parteiros).

Concordamos com a Organização Mundial da Saúde - OMS, serem as enfermeiras obstétricas treinadas e competentes a assistir ao parto natural sem distócia. O que não conseguíamos compreender até hoje, é o porquê da insistência em manter uma gestante em trabalho de parto, em um local afastado de um hospital e dependente de tempo (de ambulância, de motorista, do trânsito), exposta a risco quando se tornar urgente e necessária à intervenção de um médico. Existem lugares privados de assistência, distantes onde poderiam ser criadas casas de parto para auxiliar uma população sofrida e abandonada, mas para lá, sem médicos, nem enfermeiras querem ir.

Insistem que nós médicos não entendemos nada de casas de parto, somos muito intervencionistas, hostis, escondemos a verdade (mentirosos), oneramos o atendimento, não damos informações completas e adequadas, não damos tratamento particularizado, humanizado e holístico e não reduzimos a mortalidade materna e perinatal como deveria no país. Apresentam tabelas e estatísticas mal elaboradas, misturando resultados de casas de parto com atendimento hospitalar por enfermagem, negam veementemente que existam urgências obstétricas, que não sejam capazes de alcançar a um hospital a tempo de serem resolvidas e se apresentam como a solução da obstetrícia no Brasil e no Mundo. ( fonte: ABENFO-PR ABEN-PR )

De repente todos nós médicos somos bandidos e todas as enfermeiras são maravilhosas. Puxa !

Por tudo isso e por estarem a maioria das enfermeiras obstétricas tão fechadas a qualquer contra-argumentação, inclusive não receptivas quando convidadas a colaborarmos todos, juntos contra as reais mazelas da saúde, do atendimento e da segurança das nossas gestantes, e por não aceitarem participar da atividade num ambiente comum como funciona em diversos países, agora mais preparado e com uma visão maior da situação, sou levado a pensar, que o diagnóstico realmente está "na cara": não existe preocupação séria com o bem-estar da gestante e de seu filho. Mas sim uma briga por poder: dinheiro e autonomia. Quem ganha pelo parto realizado e quem determina as regras do "negócio".

Casas de Parto são para algumas enfermeiras, a redenção da orientação e comando do médico e por isso nos criticam tanto, baseadas em problemas muito mais abrangentes do que apenas o atendimento médico em si. Além da autonomia, também representa num futuro breve, um maior aporte financeiro às mesmas. (O que de forma nenhuma sou contra - trabalho digno, remuneração digna).

Pois bem Senhoras Enfermeiras Obstétricas. Sejam muito bem-vindas a um trabalho digno que merece um comportamento digno de todos nós. Porém se quiserem atuar como médicos, façam o vestibular e a faculdade que nós médicos fizemos. Se quiserem colaborar com a segurança e a melhoria dos resultados obstétricos nesse país, estamos ansiosos em vê-las trabalhando, ajudando a aumentar ainda mais a segurança de nossos hospitais. Venham ter autonomia, liberdade e remuneração digna, como acontece em diversos hospitais no mundo. Mas não queiram "brincar de médico" em casas de brinquedo. Talvez as pacientes de alguns médicos, para eles assim sejam, mas as minhas e da maioria dos médicos obstetras parteiros, não são brinquedos. E afinal a evolução não deve ser um caminho para retroceder as épocas onde parteiras assistiam aos partos, mas avançar a uma época onde todos seremos responsáveis e adequadamente remunerados pelo resultado: A segurança e felicidade da mãe, da criança e da nossa própria família.

Dr. José Jacyr Leal Júnior

caf@jacyrleal.com.br

http://www.jacyrleal.com.br

José Jacyr Leal Júnior Centro de Avaliação Fetal Batel SC Ltda. Curitiba - Paraná - Brasil caf@jacyrleal.com.br http://www.jacyrleal.com.br


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Última atualização: Mon May 19 16:33:23 2008