Re: Porcentagem (é filosófico, excluam se nã
From: Savaris (savaris@orion.ufrgs.br)
Fri, 28 Jan 2000 00:29:43 -0200
Caros colegas,
Fiquei surpreso com as respostas (tanto em número como em gênero) e gostei
muito do que foi colocado por todos vocês.
Jacyr, gostei muito da tua opinião, creio que é bem isso, aquilo que é fato
hoje pode ser o absurdo de amanhã.
Quanto aos medicamentos, concordo plenamente contigo mais uma vez, tenho
pacientes que ficam surpresas com algumas orientações que dou,
principalmente para candidíase (secar as partes íntimas com secador de
cabelo após o banho e de dormir sem calcinha) ao invés de da Zoltec (e não
fluconazol, pois o nosso laboratório garante a qualidade do produto, ou
Sporanox 2x/dia, etc...) e qual é a minha surpresa quando ela telefona
dizendo que melhorou com essas medidas! Sem ter que gastar sei lá quando
(R$30-45).
Infecção urinária então...lembro-me dos tempo de farmaco que as quinolonas
deveriam ser utilizadas como 2a escolha, e o tempo todo é Uritrat aqui,
Cipro ali, Norflox acolá, se eu invento de dar Infectrin 800,,,bah, médico
velho e arcaico, dando esse remedinho barato.
Jacyr, nunca te encontrei pessoalmente, mas fico feliz em ver que apesar da
distância temos visões de mundo semelhantes.
Creio que está mais na hora de fazermos o que dizestes
"atuarmos sobre as condições de vida, alimentação, atividades, emoção de
nossas pacientes do que simplesmente
receitarmos tanta bobagem ".
Ou será que sou tão bobo e ingênuo assim por que minha mãe não tomou
vitaminas na gestação ?
Vamos comer um prato bem colorida com verduras e frutas, custando no final
R$3,00 ao invés de comprar a vitamina de A-Z com selênio por R$60,00.
Obrigado por tuas contribuições.
Ricardo Savaris
>----- Original Message -----
From: José Jacyr Leal Júnior <caf@jacyrleal.com.br>
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Sent: Thursday, January 27, 2000 10:56 PM
Subject: Re: Porcentagem (é filosófico, excluam se não tiverem empo para
ler)
> Parabéns Ricardo que hoje seu aniversário tenha sido estatisticamente
muito
> feliz, que a insidência de cumprimentos tenha sido elevada e que a
> percentagem de presentes tenha sido satisfatória o suficiente dentro das
> espectativas de risco, para que você continue sempre um ótimo filósofo.
>
> Jacyr
>
>> ----- Original Message -----
> From: Savaris <savaris@orion.ufrgs.br>
> To: Multiple recipients of list OBSTET-L <obstet-l@forum.obgyn.net>
> Sent: Thursday, January 27, 2000 6:10 PM
> Subject: Porcentagem (é filosófico, excluam se não tiverem empo para ler)
>
> > Caros colegas da lista,
> >
> > Gostaria de compartilhar alguns questionamentos que eu tenho. Comecei a
> > questionar a questão de dar porcentagens para as pacientes ou de ficar
> > usando os números para impressionar colegas médicos ou para humilhá-los
na
> > sua ignorância. Nós nos deparamos muitas vezes porcentagens que são
> > totalmente inadequadas, por exemplo:
> > O risco da NICIII evoluir para carcinoma invasor varia de 14% a 70%, ou
> > então os números de provas:
> >
> > A incidência de malignização do leiomioma é de:
> > a) 0,1%
> > b) 0,5%
> > c) 1%
> > d) 5%
> > e) nenhuma das anteriores
> >
> > Mas como são números, isso nos dá certa segurança e precisão científica
> > Então eu fico a pensar: Devemos ter cuidado ao aplicar as estimativas de
> > risco (que são originários de uma população) para um paciente
individual.
> Se
> > a morte, a doença ou a lesão ocorrer naquele indivíduo, para aquela
> pessoa,
> > o risco é de 100%. A melhor maneira de abordar esse caso seria
colocando
> o
> > risco relacionado com tal situação num contexto de riscos em que ela
> > enfrenta frequentemente, por exemplo longas viagens de carro, dirigir
> depois
> > de ter tomado 2 cervejas, dirigir sem cinto de segurança numa
autoestrada
> e
> > assim por diante. Comentando isso com uma paciente, ela me disse que se
> > houvesse, mesmo que <1% de eu ter câncer de colo uterino com a presença
de
> > HPV, eu não descansaria enquanto não me tirassem o útero!
> > Portanto devemos ter cuidados com esses números ao dizer para a
paciente,
> a
> > solicitar exames de translucência nucal para pacientes que jamais fariam
> um
> > aborto por causa de trissomias. A verdadeira questão é quanto estamos
a
> > paciente e o médico) dispostos a arriscar. Isso me leva a pensar em
outras
> > coisas, a nova moda da Medicina baseada em evidências, "somente
trabalhos
> > prospectivos, randomizados, multicêntricos ou meta-análises poderiam ser
a
> > base dos nossas condutas".
> > Agora me digam, quantas pacientes que tomam TRH se queixam de aumento de
> > peso, enquanto que os trabalhos randomizados demonstram que o aumento de
> > peso nas pacientes com TRH é comparável com o uso de placebo. O uso de
> > vitaminas para mastalgias, a verdadeira importância da episiotomia e o
meu
> > questionamento mais recente, a necessidade da ausculta dos BCF no
> pré-natal
> > para as pacientes que informam boa movimentação fetal.
> >
> > Ainda acho que as meta-análises são importantes quando um governo deve
> tomar
> > uma postura de saúde pública e deve dar orientações para os médicos nas
> suas
> > condutas. PORÉM, tem a questão do erro médico, ou medicina defensiva
> > (&*%$#@!), eu fico pedindo um monte de exame para a minha paciente para
> não
> > ser processado depois por "por quê que o doutor não pediu a ecografia
> > colorida para ver o meu corrimento?).
> >
> > Talvez o melhor exemplo que eu possa dar depois disso tudo é uma citação
> que
> > li num livro de estatística:
> > A estatística é comparável a um bêbado encostado num poste de luz, serve
> > mais para apoiar do que para iluminar.
> >
> > Logo, deixo vocês nesse meu questionamento mais filosóficos do que real,
> > afinal hoje é meu aniversário e me dei o luxo de escrever isso tudo para
> > vocês.
> >
> > Ricardo Savaris, MD, MSc, TEGO, PhD
> > Porto Alegre - RS
> >
>
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Última atualização: Mon May 19 16:33:06 2008