Re: Porcentagem (é filosófico, excluam se nã
From: José Jacyr Leal Júnior (caf@jacyrleal.com.br)
Thu, 27 Jan 2000 22:49:23 -0200
Parabéns Ricardo que hoje seu aniversário tenha sido estatisticamente muito
feliz, que a insidência de cumprimentos tenha sido elevada e que a
percentagem de presentes tenha sido satisfatória o suficiente dentro das
espectativas de risco, para que você continue sempre um ótimo filósofo.
Jacyr
>----- Original Message -----
From: Savaris <savaris@orion.ufrgs.br>
To: Multiple recipients of list OBSTET-L <obstet-l@forum.obgyn.net>
Sent: Thursday, January 27, 2000 6:10 PM
Subject: Porcentagem (é filosófico, excluam se não tiverem empo para ler)
> Caros colegas da lista,
>
> Gostaria de compartilhar alguns questionamentos que eu tenho. Comecei a
> questionar a questão de dar porcentagens para as pacientes ou de ficar
> usando os números para impressionar colegas médicos ou para humilhá-los na
> sua ignorância. Nós nos deparamos muitas vezes porcentagens que são
> totalmente inadequadas, por exemplo:
> O risco da NICIII evoluir para carcinoma invasor varia de 14% a 70%, ou
> então os números de provas:
>
> A incidência de malignização do leiomioma é de:
> a) 0,1%
> b) 0,5%
> c) 1%
> d) 5%
> e) nenhuma das anteriores
>
> Mas como são números, isso nos dá certa segurança e precisão científica
> Então eu fico a pensar: Devemos ter cuidado ao aplicar as estimativas de
> risco (que são originários de uma população) para um paciente individual.
Se
> a morte, a doença ou a lesão ocorrer naquele indivíduo, para aquela
pessoa,
> o risco é de 100%. A melhor maneira de abordar esse caso seria colocando
o
> risco relacionado com tal situação num contexto de riscos em que ela
> enfrenta frequentemente, por exemplo longas viagens de carro, dirigir
depois
> de ter tomado 2 cervejas, dirigir sem cinto de segurança numa autoestrada
e
> assim por diante. Comentando isso com uma paciente, ela me disse que se
> houvesse, mesmo que <1% de eu ter câncer de colo uterino com a presença de
> HPV, eu não descansaria enquanto não me tirassem o útero!
> Portanto devemos ter cuidados com esses números ao dizer para a paciente,
a
> solicitar exames de translucência nucal para pacientes que jamais fariam
um
> aborto por causa de trissomias. A verdadeira questão é quanto estamos ( a
> paciente e o médico) dispostos a arriscar. Isso me leva a pensar em outras
> coisas, a nova moda da Medicina baseada em evidências, "somente trabalhos
> prospectivos, randomizados, multicêntricos ou meta-análises poderiam ser a
> base dos nossas condutas".
> Agora me digam, quantas pacientes que tomam TRH se queixam de aumento de
> peso, enquanto que os trabalhos randomizados demonstram que o aumento de
> peso nas pacientes com TRH é comparável com o uso de placebo. O uso de
> vitaminas para mastalgias, a verdadeira importância da episiotomia e o meu
> questionamento mais recente, a necessidade da ausculta dos BCF no
pré-natal
> para as pacientes que informam boa movimentação fetal.
>
> Ainda acho que as meta-análises são importantes quando um governo deve
tomar
> uma postura de saúde pública e deve dar orientações para os médicos nas
suas
> condutas. PORÉM, tem a questão do erro médico, ou medicina defensiva
> (&*%$#@!), eu fico pedindo um monte de exame para a minha paciente para
não
> ser processado depois por "por quê que o doutor não pediu a ecografia
> colorida para ver o meu corrimento?).
>
> Talvez o melhor exemplo que eu possa dar depois disso tudo é uma citação
que
> li num livro de estatística:
> A estatística é comparável a um bêbado encostado num poste de luz, serve
> mais para apoiar do que para iluminar.
>
> Logo, deixo vocês nesse meu questionamento mais filosóficos do que real,
> afinal hoje é meu aniversário e me dei o luxo de escrever isso tudo para
> vocês.
>
> Ricardo Savaris, MD, MSc, TEGO, PhD
> Porto Alegre - RS
>
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