Re: Porcentagem (é filosófico, excluam se nã
From: José Jacyr Leal Júnior (caf@jacyrleal.com.br)
Thu, 27 Jan 2000 22:38:28 -0200
Prezados Colegas
A estatística é importante para que nós médicos possamos compreender fatos e
com a segurança dos números (nem sempre confiáveis), possamos traduzí-las
aos nossos pacientes.
TN (x) + Idade (y) + História (z) + ... = 236,7 % sua chance de Sd. Down
ah! amanhã é seu aniversário ? então .... x....+...-....9 x fora = 345,6 %
ops, aumentou sua chance de ter filho com "problemas" ...
Também não sou afeito a tanta exatidão e prefiro orientar minhas pacientes
numa estatística grosseira mas que elas entendem perfeitamente. Quando sou
questionado da gestante ter um filho com os err.. "problemas" por que já tem
38 anos ou 40 anos e lhe disseram que tem 1% de (muita) probabilidade ?
Lembro que tenho uma mulher aflita em minha frente e ansiosa por uma luz de
esperança.
Será que não seria suficiente a ansiedade frente a um diagnóstico real ?
Porque gerar ansiedade a uma paciente de graça ?
Ao meu ver é o mesmo que ao pegar meu carro para ir a São Paulo pela BR 116,
alguém me assegurar que tenho muita chance de morrer esmagado embaixo de um
rodado de caminhão. Isso é inteligente ?
Minha pergunta a ela é: A Sra está em um pequeno supermercado logo cedo, com
mais 99 mulheres fazendo compras quando alguém é sorteada. Qual chance de
ser Sra ?
A Sra está numa fila de cem mulheres num cinema onde uma será assaltada... Ela fica contente por que tem 99% de chance de não ser ela, e ao mesmo tempo
terá suporte em toda a sua gestação.
Da minha parte, tenho muito pouca probabilidade de morrer na estrada a
caminho do Congresso do Dr. Thomaz.
José Jacyr Leal Júnior
Centro de Avaliação Fetal Batel SC Ltda.
Curitiba - Paraná - Brasil
caf@jacyrleal.com.br
http://www.jacyrleal.com.br
>----- Original Message -----
From: nevton <nevton@uol.com.br>
To: Multiple recipients of list OBSTET-L <obstet-l@forum.obgyn.net>
Sent: Thursday, January 27, 2000 8:59 PM
Subject: Re: Porcentagem (é filosófico, excluam se não tiverem empo para
ler)
>
> -----Mensagem original-----
> De: Savaris <savaris@orion.ufrgs.br>
> Para: Multiple recipients of list OBSTET-L <obstet-l@forum.obgyn.net>
> Data: Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2000 18:06
> Assunto: Porcentagem (é filosófico, excluam se não tiverem empo para ler)
>
> >Caros colegas da lista,
> >
> >Gostaria de compartilhar alguns questionamentos que eu tenho. Comecei a
> >questionar a questão de dar porcentagens para as pacientes ou de ficar
> >usando os números para impressionar colegas médicos ou para humilhá-los
na
> >sua ignorância. Nós nos deparamos muitas vezes porcentagens que são
> >totalmente inadequadas, por exemplo:
> >O risco da NICIII evoluir para carcinoma invasor varia de 14% a 70%, ou
> >então os números de provas:
> >
> >A incidência de malignização do leiomioma é de:
> >a) 0,1%
> >b) 0,5%
> >c) 1%
> >d) 5%
> >e) nenhuma das anteriores
> >
> >Mas como são números, isso nos dá certa segurança e precisão científica
> >Então eu fico a pensar: Devemos ter cuidado ao aplicar as estimativas de
> >risco (que são originários de uma população) para um paciente individual.
> Se
> >a morte, a doença ou a lesão ocorrer naquele indivíduo, para aquela
pessoa,
> >o risco é de 100%. A melhor maneira de abordar esse caso seria colocando
o
> >risco relacionado com tal situação num contexto de riscos em que ela
> >enfrenta frequentemente, por exemplo longas viagens de carro, dirigir
> depois
> >de ter tomado 2 cervejas, dirigir sem cinto de segurança numa autoestrada
e
> >assim por diante. Comentando isso com uma paciente, ela me disse que se
> >houvesse, mesmo que <1% de eu ter câncer de colo uterino com a presença
de
> >HPV, eu não descansaria enquanto não me tirassem o útero!
> >Portanto devemos ter cuidados com esses números ao dizer para a paciente,
a
> >solicitar exames de translucência nucal para pacientes que jamais fariam
um
> >aborto por causa de trissomias. A verdadeira questão é quanto estamos ( a
> >paciente e o médico) dispostos a arriscar. Isso me leva a pensar em
outras
> >coisas, a nova moda da Medicina baseada em evidências, "somente trabalhos
> >prospectivos, randomizados, multicêntricos ou meta-análises poderiam ser
a
> >base dos nossas condutas".
> >Agora me digam, quantas pacientes que tomam TRH se queixam de aumento de
> >peso, enquanto que os trabalhos randomizados demonstram que o aumento de
> >peso nas pacientes com TRH é comparável com o uso de placebo. O uso de
> >vitaminas para mastalgias, a verdadeira importância da episiotomia e o
meu
> >questionamento mais recente, a necessidade da ausculta dos BCF no
pré-natal
> >para as pacientes que informam boa movimentação fetal.
> >
> >Ainda acho que as meta-análises são importantes quando um governo deve
> tomar
> >uma postura de saúde pública e deve dar orientações para os médicos nas
> suas
> >condutas. PORÉM, tem a questão do erro médico, ou medicina defensiva
> >(&*%$#@!), eu fico pedindo um monte de exame para a minha paciente para
não
> >ser processado depois por "por quê que o doutor não pediu a ecografia
> >colorida para ver o meu corrimento?).
> >
> >Talvez o melhor exemplo que eu possa dar depois disso tudo é uma citação
> que
> >li num livro de estatística:
> >A estatística é comparável a um bêbado encostado num poste de luz, serve
> >mais para apoiar do que para iluminar.
> >
> >Logo, deixo vocês nesse meu questionamento mais filosóficos do que real,
> >afinal hoje é meu aniversário e me dei o luxo de escrever isso tudo para
> >vocês.
> >
> >Ricardo Savaris, MD, MSc, TEGO, PhD
> >Porto Alegre - RS
> >
> >Caro colega!
> A sua "filosofada" tem qual objetivo??? Melhorar a qualidade da medicina
no
> Brasil?? Ou quer mostrar que vc é melhor do que os outros porque
"filosofa"
> e tem vários títulos "importantes"? Considero válida a sua preocupação,
> porque realmente, no dia-a-dia não lidamos com números(se assim fosse
> estaríamos fazendo Engenharia ou, como no exemplo citado do nobre colega,
> Estatística). Estamos lidando com seres humanos e nós, MÉDICOS, somos tão
> humanos quanto qualquer um de nossos pacientes e também passíveis de erro.
> Mas, para não errar, não é o uso de números que vai nos ajudar e sim o
> olho-no-olho, termos humildade e humanidade e não nos escondermos atrás de
> nossos títulos. Uma pergunta:- Estatisticamente falando, qual a chance de
um
> colega com TEGO e outro sem TEGO de errar???
> >
>
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