Re: Parto (des)humanizado
From: João Batista Marinho de Castro Lima (jbmclima@uol.com.br)
Thu, 13 Jan 2000 19:49:24 -0200
É isso aí caro Júlio. As mulheres, por serem pobres e do SUS, independente
do que recebemos, não precisam ser tratadas desta forma. Já passou da hora
de mudar a filosofia de assistência ao parto no Brasil.
João Batista
jbmclima@uol.com.br
-----Mensagem Original-----
De: Júlio Aragão <julio.aragao@uol.com.br>
Para: Multiple recipients of list OBSTET-L <obstet-l@forum.obgyn.net>
Enviada em: segunda-feira, 10 de janeiro de 2000 18:38
Assunto: Parto (des)humanizado
> Quanto à questão do parto (des)humanizado gostaria de fazer algumas
> considerações:
>
> 1. As gestantes, que vivem um momento mágico e divino (gestar, criar uma
> nova vida) são repentinamente acometidas por fortes dores sobre as quais
> nada entendem e que as levam a buscar atendimento em um Hospital, lugar
> de doentes, que, pelo menos em teoria, jamais poderia estar relacionado
> com o nascimento.
> 2. Lá chegando, é atendida por um sujeito que lhe é desconhecido, que
> não a conhece e nem mesmo sabe ou tem intenção de saber o seu nome ("a
> essa hora, dona Maria?").
> 3. Decidida a internação ("vai ficar aqui, comadre") a gestante passa a
> ser "propriedade" do Hospital e recebe procedimentos os mais variados
> para os quais não está preparada e não compreende. Tricotomia ("não mexe
> se não a enfermeira te corta,dona Maria"), Enema (precisa comentar?).
> Punção venosa e "Um sorinho para adiantar o parto".
> 4. Chegando ao pré parto a paciente se encontra em um ambiente
> desconhecido, sozinha com (ou contra?) pessoas as quais nunca viu antes.
> O leito é obrigatório, levantar somente para parir ou ir ao banheiro. Se
> a dor aumentar a orientação profissional é clara e direta ("Não grita!
> Prá fazer aposto que você não gritou!" ou "Faz força prá acabar logo
> com isso, dona Maria!")
> 5.Após esta estadia tranquila no pre-parto o momento tão esperado se
> desvenda e aqueles que antes pediam força hercúlea agora pedem que
> espere ("não faça força agora senão vai nascer na cama!!") Adaptada à
> mesa de parto a gestante se vê a volta ordens vindas de diversos
> profissionais sem saber a qual seguir ("Faz força igual de fazer cocô!"
> ; " Respira fundo!" ; "Relaxa o bumbum!" ; "Deixa a mão no ferro!") A
> ansiedade do momento do parto é bem compreendida pela equipe ("Se não
> fizer força o seu neném MORRE, dona Maria!!!" ou "Ela não ajuda
> nada!").Alguém então se oferece para "dar uma ajudinha" A notícia é bem
> recebida pela gestante até o momento em que ela percebe qua a tal ajuda
> consiste em alguém debruçar-se sobre seu útero grávido, forçando assim a
> expulsão do concepto em meio a grande ansiedade e dores lancinantes.
> 6. Nascido o rebento o mesmo é entregue ao pediatra (ou auxiliar de
> enfermagem) que se dedica rapidamente a secá-lo, aspirá-lo e levá-lo
> dali, nào sem antes deixá-lo conhecer a mãe (às vezes um minuto
> inteiro!) As perguntas da mãe curiosa são prontamente atendidas ("Só no
> berçário, mãe.").
> 7. um ou dois dias decorridos do parto mãe e filho são liberados do
> hospital, recebendo uma data de revisão para daqui a 45 dias.
>
> Não quero dizer que o parto em instituições públicas seja sempre
> desumano, mesmo porque trabalho em instituições públicas que primam pelo
> respeito e acolhimento que dão ou tentam dar a seus pacientes.
> Infelizmente esse não é o quadro que encontramos quando olhamos o quadro
> geral do nosso país. Quem quer que nunca tenha presenciado ao menos uma
> dessas frases acima que atire o primeiro Kristeller.
>
> Um grande abraço a todos.
>
> Júlio Aragão
>
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Última atualização: Wed Mar 26 19:47:37 2008