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Parto (des)humanizadoFrom: Júlio Aragão (julio.aragao@uol.com.br)Wed, 12 Jan 2000 18:34:06 -0200
Quanto à questão do parto (des)humanizado gostaria de fazer algumas considerações: 1. As gestantes, que vivem um momento mágico e divino (gestar, criar uma nova vida) são repentinamente acometidas por fortes dores sobre as quais nada entendem e que as levam a buscar atendimento em um Hospital, lugar de doentes, que, pelo menos em teoria, jamais poderia estar relacionado com o nascimento. 2. Lá chegando, é atendida por um sujeito que lhe é desconhecido, que não a conhece e nem mesmo sabe ou tem intenção de saber o seu nome ("a essa hora, dona Maria?"). 3. Decidida a internação ("vai ficar aqui, comadre") a gestante passa a ser "propriedade" do Hospital e recebe procedimentos os mais variados para os quais não está preparada e não compreende. Tricotomia ("não mexe se não a enfermeira te corta,dona Maria"), Enema (precisa comentar?). Punção venosa e "Um sorinho para adiantar o parto". 4. Chegando ao pré parto a paciente se encontra em um ambiente desconhecido, sozinha com (ou contra?) pessoas as quais nunca viu antes. O leito é obrigatório, levantar somente para parir ou ir ao banheiro. Se a dor aumentar a orientação profissional é clara e direta ("Não grita! Prá fazer aposto que você não gritou!" ou "Faz força prá acabar logo com isso, dona Maria!") 5.Após esta estadia tranquila no pre-parto o momento tão esperado se desvenda e aqueles que antes pediam força hercúlea agora pedem que espere ("não faça força agora senão vai nascer na cama!!") Adaptada à mesa de parto a gestante se vê a volta ordens vindas de diversos profissionais sem saber a qual seguir ("Faz força igual de fazer cocô!" ; " Respira fundo!" ; "Relaxa o bumbum!" ; "Deixa a mão no ferro!") A ansiedade do momento do parto é bem compreendida pela equipe ("Se não fizer força o seu neném MORRE, dona Maria!!!" ou "Ela não ajuda nada!").Alguém então se oferece para "dar uma ajudinha" A notícia é bem recebida pela gestante até o momento em que ela percebe qua a tal ajuda consiste em alguém debruçar-se sobre seu útero grávido, forçando assim a expulsão do concepto em meio a grande ansiedade e dores lancinantes. 6. Nascido o rebento o mesmo é entregue ao pediatra (ou auxiliar de enfermagem) que se dedica rapidamente a secá-lo, aspirá-lo e levá-lo dali, nào sem antes deixá-lo conhecer a mãe (às vezes um minuto inteiro!) As perguntas da mãe curiosa são prontamente atendidas ("Só no berçário, mãe."). 7. um ou dois dias decorridos do parto mãe e filho são liberados do hospital, recebendo uma data de revisão para daqui a 45 dias. Não quero dizer que o parto em instituições públicas seja sempre desumano, mesmo porque trabalho em instituições públicas que primam pelo respeito e acolhimento que dão ou tentam dar a seus pacientes. Infelizmente esse não é o quadro que encontramos quando olhamos o quadro geral do nosso país. Quem quer que nunca tenha presenciado ao menos uma dessas frases acima que atire o primeiro Kristeller. Um grande abraço a todos.
-- Júlio Aragão
Administrador da lista: flavio.monteiro.desouza@obgyn.net Solicitações à lista: obstet-l-request@obgyn.net Última atualização: Wed Mar 26 19:47:37 2008 |
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