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Re: A ÉTICA, AS SEGURADORAS E O ERRO MÉDICOFrom: Flavio Monteiro de Souza (flavioms@unisys.com.br)Sat, 31 Mar 2001 16:10:07 -0300
Caros colegas da lista: O texto do colega Jacyr Leal é uma espécie de desabafo e de expressão da angústia da classe. Não acho que o problema do número crescente de processos seja devido exclusivamente ao interesse econômico de seguradoras. Acho que o problema principal é que está sendo descoberta uma forma de ganhar dinheiro fácil, acusando generalizadamente médicos de erros quando o resultado do tratamento não é o esperado. É como uma loteria, com maior chance de ganhos que o sorteio pela Caixa Econômica. É uma espécie de "se colar, colou", ou seja, eventualmente pode sair uma condenação milionária, já que a Justiça pode errar também. É a indústria das indenizações que está se crianda, igualzinho se fez há alguns anos nos EUA. Erros há, sempre houve e sempre haverá. Mas na maior parte das contendas não há erro e, na maior parte dos erros, não há contenda ou o erro "se corrige" pela força da natureza. O nosso contrato com o paciente não pode ser de resultados pois existem inúmeras variáveis evolvidas no tratamento e tantos fatores imponderáveis que não se pode garantir o resultado do ato médico, em geral. Medicina não é ciência exata. Um abraço a todos, Flavio Monteiro.
> ----- Original Message ----- Muito bem escrito Dr Jacyr. Claudia Inhaia GO São Miguel do Oeste - SC
> ----- Original Message ----- A ÉTICA, AS SEGURADORAS E O ERRO MÉDICO José Jacyr Leal Júnior crm 9908 Curitiba-Paraná A Imprensa vem apresentando algumas reportagens curiosas sobre "erro médico" nos últimos dias. Tema relevante para toda a sociedade, que sempre deve ser debatido, porém nunca de forma irresponsável. Temos que estar muito atentos e preocupados, não apenas como médicos, mas como cidadãos, quando meios de comunicação tão respeitados e importantes, passam a ser usados por grupos organizados, que deliberadamente fomentam o caos para a obtenção de vantagens. Inicio com a reportagem sobre uma Senhora, que pede para ser identificada como "vítima do bisturi", fundadora de uma associação. Diz tentar a três anos sem conseguir provar falha médica, quando em uma cirurgia para retirada de um cisto no ovário, lhe foi lesado um ureter - canal que liga o rim à bexiga, e hoje diz ter que gastar cerca de R$200,00 reais por mês. Mesmo com todo o respeito à situação de qualquer pessoa, vítima real de erro médico, e eles existem sim, a maior parte dos casos levados a questionamento, são complicações implícitas do ato médico e não bem aceitas pelo paciente. Medicina não é uma ciência exata e muitas variantes são possíveis. No caso citado, e mesmo levianamente sem conhecê-lo, imagino apenas duas situações: Um ureter com localização não usual e, portanto passível de ser lesado acidentalmente e o mais provável, um cisto ovariano endometriótico que produz um sem fim de aderências em todas as estruturas pélvicas. Apenas quem se deparou com dita cirurgia, sabe o que e quanto tempo leva para, mesmo com todos os cuidados, prudência e capacidade, livrar-se de lesar um ureter, a bexiga ou principalmente uma alça intestinal. As lesões fazem parte do ato de "limpar a pelve" para a retirada do cisto. Algum cirurgião não passou por isso ainda? Isso não só explicaria a lesão ureteral, complicação possível e não tão infreqüênte na cirurgia dessa Senhora como o citado gasto mensal, custo de medicamentos necessários para a patologia. Não foram suficientes segundo ela mesma, os "vinte médicos" que tentaram lhe orientar e tranqüilizar. É mais fácil chamar os médicos de coorporativos do que aceitar ter uma patologia e suas complicações. É importante que a sociedade defenda-se em associações ou qualquer mecanismo apropriado, e a imprensa tem tido na história da humanidade um papel preponderante. Mas da mesma forma, também têm a população sido manipulada, e a imprensa utilizada como meio dos mais perversos grupos e interesses. Como vender se não há comprador? Promover uma terrível inquietude numa relação tão digna como médico e paciente? É a minha profissão e eu não posso permitir. Instigar insegurança na população e joga-la contra a classe médica que trabalha com vida e muitas vezes numa situação de guerra, onde até partos são feitos em cima de pias de hospitais, porque quem deveria dar condições não dá e só se interessa pela população no momento de uma eleição? Promover o medo nos médicos para "empurrar a eles garganta abaixo" mais uma cobrança mensal polpuda para enriquecer ainda mais os bancos? O que há por traz disso? Os repórteres que assinam os textos são intencionalmente mal informados por suas fontes e assim sendo, conduzidos a cometer um "erro jornalístico". Com certeza suas intenções são de também serem úteis à sociedade. Tenho dúvidas de que 40% dos médicos estejam contratando seguro. Não devem chegar a 5%. Parece-me mais uma forma de convencer os médicos a participar desse grotesco processo. Também relatar que o número de ações contra médicos dobrou de 1999 para 2000 pode ser real, mas insignificante quando avaliado em números absolutos. 600 ações durante um ano para um número de atendimentos que deve ultrapassar milhões só no Paraná. Basta multiplicar o número de médicos pelo número de atendimentos em um ano para perceber essa proporção. E a imensa maioria desses atendimentos, mesmo algumas vezes não sendo adequados nessa relação infeliz entre prioridades de governo e população, leia-se médicos e pacientes, não geram danos, mas sim pessoas tratadas e satisfeitas com o esforço da imensa maioria dos seus médicos. Segundo informação extra oficial os processos não devem ultrapassar 40 no ano. Mesmo assim são processos e não condenações, além do que muitos gerados por dificuldades na relação médico-paciente e não por erro propriamente dito. Há sim uma indústria de seguros em andamento incentivada por bancos e seguradoras com perspectivas funestas para os principais envolvidos, médicos e pacientes. O paciente é estimulado iniciar o processo pela possibilidade de receber enormes somas em dinheiro. A seguradoras sabem que estarão bem por quatro principais motivos: A maioria dos processos, após muito sofrimento e desgaste para médicos e pacientes, terminará como complicações inerentes ao ato médico e não a erro, e, portanto a seguradora livre de qualquer questionamento financeiro. Os seguros de contra médicos oferecem apenas proteção às chamadas custas com a justiça, advogados, protocolos, etc... em média algo em torno de R$20.000,00 que para as seguradoras equivale ao preço de um seguro para um carro médio. Com o aumento do número dos processos, o preço dos contratos de seguro serão cada vez mais caros e necessários. (quanto mais se rouba uma marca de carro, mais caro é seu contrato de seguro). Hoje um ginecologista/obstetra para contratar um seguro, tem de faze-lo num valor como ginecologista, outro como obstetra outro como cirurgião ginecologista e por fim outro como cirurgião obstetra. Cada caso é diferenciado podendo render a algumas seguradoras algo em torno de R$600,00 mensais. Interessante que a advogada que cita "falta de informação técnica" dos Conselhos Regionais de Medicina, que por sua vez recomendam aos médicos não contratarem tais seguros, é também representante do sindicato das seguradoras do Paraná. Ela pretende julgar que não existe indústria das indenizações porque tais valores não chegam a R$100.000,00??? o que para ela não justificaria incentivo aos pacientes. Porém a indústria das indenizações não trata da indenização em si, mas sim da indústria da contratação dos seguros. Mais uma taxa a ser paga mensalmente pelos médicos a banqueiros, para dessa forma sentirem-se falsamente mais tranqüilos ao exercer sua profissão. Há uma orquestra montada para colocar pacientes contra médicos e médicos contra pacientes onde apenas bancos e seguradoras levam vantagem. Ambos pacientes e médicos desgastados física e emocionalmente no final poderão ver que foram usados. Será que o caminho é permitir que eventuais erros médicos continuem acontecendo para manter o enriquecimento de bancos e seguradoras em nome de uma relação cada vez mais caótica da sociedade? Ou fazer crescer o consenso a todos de que a relação médico-paciente deve ser cuidada e respeitada nos seus múltiplos aspectos para minimizar ao máximo as chances de erro. Os Conselhos de Medicina e as Associações Médicas lutam em conjunto para que de forma responsável, haja cada vez mais um avanço nas conquistas médicas em benefício de todos e para que dentro da educação médica continuada, a ética e a harmonia possam compartilhar desses objetivos. Não podemos permitir que dinheiro, sempre o dinheiro e outros interesses espúrios venham dificultar ainda mais uma relação tão desejosa de dar certo como a relação médico-paciente. O mundo precisa que essas relações dêem certo e que pessoas como a Senhora da reportagem sejam ajudadas a encontrar seus caminhos de forma ética e responsável e não sendo usadas para interesses de terceiros em nome do dinheiro e da imoralidade.
Administrador da lista: flavio.monteiro.desouza@obgyn.net Solicitações à lista: obstet-l-request@obgyn.net Última atualização: Mon May 19 16:34:10 2008 |
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